sexta-feira, 3 de abril de 2020

DOZE HORAS EM DILIGÊNCIA - GUIA DO VIAJANTE DE PETRÓPOLIS A JUIZ DE FORA

Queridos leitores,
     
       Tempos atrás, no auge de minhas pesquisas junto à BIBLIOTECA NACIONAL, tive contacto com o original dessa magnífica publicação, quando buscava maiores dados sobre a chegada da ferrovia à BICAS  tentando entender o que eram as vias de acesso àquela região, naqueles tempos já remotos. 

       Sabemos que em 1885 e 1888, quando vieram nossos bisavós, já existia a alternativa para chegar a Bicas de trem mas, basicamente a viagem era a mesma, em tudo que a qualifica como "pitoresca".
       Mais recentemente, nosso amigo JOÃO FRANCISCO CARVALHO enviou-me o arquivo em pdf desse livro, pelo qual muito agradeço. Como já o conhecia, guardei para utilização futura. Hoje, Março/Abril de  2020, vivendo o momento único de isolamento social devido à pandemia de coronavírus e sabendo da dificuldade de muitos com arquivos em pdf, resolvi transcreve-lo aqui.Espero que apreciem, preencham com saber seus momentos de ócio forçado e aprendam maravilhas. Porque isso nunca é demais!
Boa leitura!


PS: Texto atualizado segundo a linguagem corrente em nossos dias. 









                                         DO RIO DE JANEIRO À PETRÓPOLIS
                             PELO VAPOR E A ESTRADA DE FERRO DE MAUÁ

                                                    SERVIÇO TODOS OS DIAS
     Partida da Prainha às 6 horas da manhã nos domingos e dias de festejo; às 2 horas da tarde nos dias úteis.
     Estas horas de partida são algumas vezes alteradas, porém os jornais indicam essa mudança alguns dias antes.
     Há tílburis para conduzir os passageiros à estação do embarque; tomados no interior da cidade, custam 500 réis; os carros de quatro lugares custam 2 mil réis.
     Os bilhetes para Petrópolis são entregues para viagem inteira ou para as estações. 
                                                          
                                                           VIAGEM INTEIRA
                                                  1ª classe ............................ 8$000
                                                  2ª classe............................. 6$000
                                                  3ª classe..............................4$000

     Estabeleceu-se a 3ª classe para os escravos, porém as pessoas que querem tirar o calçado, ali são admitidas, o que frequentemente acontece com a maior parte dos trabalhadores dos campos.
     Para as estações paga-se:
Da Prainha a Mauá                1ª classe............. 1$500
                                              descalços ..........     500
Da Prainha a Inhomirim        1ª classe ............ 2$500
                                               2ª classe ............ 1$500
                                               descalços........... 1$000
Da Prainha à Raiz da Serra    1ª classe .........4$000
                                               2ª classe..........3$000
                                               descalços........1$000
Carros da Serra                      1ª classe ........ 4$000
                                               2ª classe ........ 3$000

      A viagem em vapor, os instantes passados sobre a estrada de ferro e a subida da serra, oferecem aos amadores as vistas mais agradáveis. Do ponto culminante dessa montanha elevada de 1000 metros, pouco mais ou menos, acima do nível do mar, um panorama imenso e de um especto realmente esplêndido encanta a vista. No extremo horizonte avista-se o Rio de Janeiro, com sua baía que o cinge, e que é tão vasta que poucas são conhecidas que a igualem. 
     Em breve ofereceremos aos nossos leitores um pequeno guia, do Rio de Janeiro à Petrópolis, para explicar essa viagem.

                                                        CHEGADA A PETRÓPOLIS
     Encontra-se um confortável regular no hotel de Bragança e na casa particular do senhor Dujardin, antigo hotel de França. 
     No hotel de Bragança  paga-se por pessoa e por dia 5$000; em casa do senhor Dujardin trata-se com ele mesmo. 
     Encontra-se em Petrópolis carros e cavalos de aluguel para passeios nos arredores. 
     À tarde, as pessoas que gostam de baile, acharão ali o seu desideratum; os alemães, esses laboriosos colonos, entregam-se com fúria a esse divertimento.
     Nos domingos e dias de festejo principiam a danças às seis horas da tarde e finalizam às seis horas da manhã. Petrópolis não tendo a felicidade de possuir o gaz, vejam os leitores como esses filhos da grande raça germânica sabem suprir esta falta de luz.
     N.B.  Julgo eu dever observar aos meus leitores, que não é sempre prudente tomar os lugares do tejadilho para subir a serra, visto chover quase todos os dias, antes de chegar ao lugar de destino.


                                                                 PREFÁCIO
     Não é a primeira vez que experimento o desejo de tornar conhecida a bela estrada União -Indústria; infelizmente nem sempre os meios pecuniários estão relacionado a este desejo. Na maioria das vezes é impossível realizar minhas ideias.
     No entretanto, um dia em que me achava fazendo retratos numa casa que me é cara, resolvi definitivamente por mãos à obra e escrevi essas  Doze Horas em Diligência, que tenho a honra de recomendar aos meus leitores.
     Num trabalho feito à galope, não se pode esperar estilo elegante e florido, mas sim uma ligeira descrição dos lugares notáveis, atravessados ppr uma estrada magnífica. Esta obra não tem o merecimento senão o de ser: o primeiro guia do viajante feito no país,  guia ilustrado de desenhos copiados da fotografia. 
     Ouso esperar que seja de tanta utilidade ao jovem brasileiro, desejoso de instruir-se, como ao estrangeiro que se dará por satisfeito de levar uma lembrança desta terra admirável, que nunca se percorre sem sentir vivas emoções, causadas pela variedade e o grandioso de sua natureza.
     Se a minha simples descrição for útil à história, se os desenhos tirados de minhas fotografias atraírem a atenção dos amadores, se os quadros que eles representam causarem algumas sensações aos verdadeiros artistas, julgar-me-ei largamente recompensado das minhas fadigas e das minhas excursões nesta magnífica  terra de Santa Cruz, que habito a quase 20 anos e que deixará em minha memória a mais bela lembrança da minha humilde existência.






                                                                        A PARTIDA
     São seis horas da manhã. Os sons agudos das trombetas fazem-se ouvir. É o condutor (talvez João Alemão ou o menino Brandão: se for o último eu vos recomendo, ele merece muito ser apreciado) que nos chama à diligência.
     As mulas impacientes batem no chão as patas frementes; já disparariam, se não fossem retidas pelas mãos vigorosas do criado de estribaria. Esse barulho discordante, reunido aos da trombeta, no dizem suficientemente que não temos um instante a perder. 
     Entrem, entrem; partimos!
     Vamos com rapidez deixando atrás de nós a rua do Imperador; à direita ergue-se gracioso, porém não concluído, o palácio imperial; entremos na rua dos Protestantes. Uma curva e depois nos achamos no vale encantador de Westphalia, último arrabalde deste pequeno Versailles Brasileiro.
     À esquerda, uma ponte atravessa o Piabanha, caprichoso riacho que nasce na vertente ocidental da cordilheira dos Órgãos, e que depois de haver banhado com seus tributários todos os valezinhos de Petrópolis, nos acompanhará em nossa excursão por mais  de 60 quilometros; ora calma e límpido como um riacho de idílio, ora violento e fogoso como uma torrente indomada. Do outro lado dessa ponte existe o palacete do Barão de Mauá, cujo nome e serviços prestados são sinceramente louvados por todos os brasileiros.
     O Barão de Mauá é um desses homens que honram sua época de elevam-se à si mesmos elevando o seu país.
     Marchamos com toda rapidez; nossas mulas atravessam os espaços na razão de 16 quilômetros por cada hora.  Ali a casa do embaixador da Rússia, o Sr. de Glinka; em frente, num rochedo à nossa direita, uma chapa de mármore recorda os primeiros trabalhos da estrada União-Indústria, obra grandiosa que vamos hoje percorrer, devida à inteligente e incansável perseverança do finado Comendador Mariano Procópio Ferreira Lage, que apesar de todos os obstáculos e superando todas as dificuldades, conseguiu finalmente dotar o seu país de uma via de comunicação admirável, que desenvolveu a riqueza de duas províncias e trouxe um progresso imenso que aumenta todos os dias. 
     Corremos sempre; chegando a ponte do Retiro, passamos para a margem esquerda do Piabanha; aqui e acolá transforma-se em torrente e suas cachoeiras sucessivas formam a final e esplêndida cascata de Bulhões-Cascatinha, que do carro não podemos ver, mas cujos surdos roncos ouvimos por baixo dos pés, como um trovão longínquo. Essa cascata se acha a 780 metros, pouco mais ou menos, acima do nível do mar, sendo um bonito passeio para os habitantes de Petrópolis; encontram-se ali picadas em ziguezague de onde se descobrem quadros encantadores.





     O vale de Westphalia, que acabamos de percorrer, é frequentemente o teatro de cenas de desolação, quando o Piabanha enche com as chuvas diluvianas, que às vezes caem em Petrópolis, esse pequeno rio sai de seu leito por demais estreito, atira-se, arrastando sob sua passagem as árvores, as casas, o solo vegetal mesmo, deixando apenas o rochedo nu e assolado. 
     A noite medonha de 8 de Janeiro de 1866, fora outras, deixará  por muito tempo a sua terrível lembrança.
     Amigos, que nos acompanham nessa viagem, embuçai os capotes, escondei os rostos nos cachez-nez, se tivestes o cuidado de trazê-los, porque o ar glacial que sopra neste lugar, torna-se ainda mais vivo pela rápida descida de Samambaia.
     Estamos agora no ponto de interseção de 2 ou 3 vales, cercados de picos graníticos, elevados e muito pitorescos; mas por ora perfeitamente gelados, por causa de seus raios anaclásticos . E naturalmente tanto o frio quanto o calor emitem ao meio-dia.
     Este belo conjunto de agulhas de granito, lançadas a um só jato a essa altura vertiginosa, pareceria talvez devida à uma dessas poderosas rupturas da casca sólida do nosso globo; dominando a paisagem torna-a infinitamente pitoresca; porém sobretudo o que ainda mais se faz notável , é o efeito que produzem aquelas árvores magníficas - Araucarias Brasiliensis- , certamente que se pode supô-las contemporâneas dessas mesmas agulhas, porque suas alturas e seus aspectos indicam  suficientemente que elas ali se acham desde longos anos.
     Paremos 5 minutos.  É a PRIMEIRA MUDA.







                                                                       CORRÊAS
     Na fazenda que se vê à nossa direita, há uma lembrança histórica. Em 1830-1831 D.Pedro I indo visitar a província de Minas Gerais aí parou; existe ainda o quarto onde ele foi convidado a passar a noite.
     Um pouco mais longe da fazenda, a pouco mais ou menos dois quilômetros, há uma pequena e linda cascata que de vez em quando é alvo do passeio da Família Imperial; os estrangeiros que vão à Petrópolis raramente deixam de lá ir. 
     Andamos de novo a estrada plana, continua descendo quase insensivelmente até o alto do Taquaril.
     Alcançamos a ponte do Bom-Sucesso, gracioso trabalho de ferro, sistema vigas direitas e grades.
     Essa ponte deve seu nome ao rio que atravessa e que tem o seu confluente nas águas do Piabanha,
por baixo mesmo do arco. Em 1866, na inundação de que já falei, as águas do Piabanha refluíram com uma impetuosidade tal, que a ponte correu graves riscos de destruição; os pilares ficaram suspensos no vão, sustentando´se só por sua força de inércia.





     Novos trabalhos de consolidação foram feitos depois, e hoje nenhum acidente desta ordem é de temer-se. 
     Ainda outra ponte, chamada Olaria, sobre o Piabanha: sua forma é singular, seus arcos laterais parecem-se com as caixas das rodas de um vapor; os ingleses chamam Bow String, sistema muito moderna que se recomenda mais por sua solidez que por sua elegância.
     O hábil engenheiro desta parte da estrada, o Sr.Bulhões, empregou quase todos os sistemas de pontes conhecidos, combinando-os com uma inteligência rara, o que, junto ao encanto da variedade, reúne a vantagem de fazer desses trabalhos de arte especiais, um importante ponto de estudo para um jovem engenheiro.
     Uma outra ponte chamada de Santo Antônio, é de varões retos de ferro.
     O vale que percorremos nada tem de muito notável por sua fertilidade; é ainda muito elevado, e o húmus vegetal arrastado por esses declives rochosos não chega a acumular-se em quantidade suficiente para formar um terreno próprio às culturas especiais; todavia, a fecundidade relativa desses terrenos permite ao incansável colono de colher anualmente duas colheitas de milho, feijão e batatas que amadurecem sucessivamente e indenizam os trabalhadores de suas fadigas e de seus cuidados. De quantas famílias infelizes da Europa , este canto de terra faria a felicidade?
     O homem inteligente que fez com labor, deste terreno, estéril na aparência, um terrenos mais produtivo que uma plantação de café, é o português Antônio Tavares Bastos.Emprega unicamente braços livres, e mesmo pagando-os bem, ainda lhe fica um benefício razoável. É à sua iniciativa, ouvimos dizer, que se deve esta capelinha chamada de Itaipava, que vemos por cima daquela trincheira, à nossa direita.
     À nossa esquerda vê-se a cascata chamada o Salto: em certo tempo do ano pesca-se ali o peixe com cestos; a descrição que me fizeram lembrou-me a famigerada pesca dos narizzes, que vi praticar em um pequeno rio da Suíça. À noite uma multidão de pessoas munidas de archote entregavam-se a este divertimento. Era verdadeiramente curioso. Eu vi as duas margens do rio literalmente cobertas de peixes e como aqueles não serviam para comer, perguntava-me à mim mesmo por que o homem comprazia-se sempre com tanta avidez na destruição? Aqui o caso não é o mesmo, porque parece que esses peixes são dos mais saborosos.
     Algumas curvas, alguns pequenos recantos que fariam as delícias de um pintor, e os marcos quilométricos, fogem atrás de nós; contamos o número 30 e estamos  na SEGUNDA MUDA.

                                                               PEDRO DO RIO
     Desta imensa estação, que foi a primeira da Companhia, breve nada mais restará do que o desenho retirado da fotografia que acompanha este pequeno livro. Ao ruído e à animação sucederão a calma e o silêncio.
     Durante os anos de 1858 e 1859, ela recebeu perto de 400.000 sacos de café; em 1867, recebeu apenas 5.187 sacos. É verdade que nos primeiros anos a estrada não ia além, e os lavradores deviam, à custa dos maiores sacrifícios, conduzir os seus produtos até a estação. Hoje os carros da Companhia recebem o café em toda a extensão da estrada e os transportam até o Rio de Janeiro, com uma economia que se pode avaliar em 12.403.000$000, em benefício da agricultura e do comércio, desde a criação dessa magnífica via de comunicação.
     A exportação do café que em 1858 era apenas 126.276 sacos elevou-se em 1867 a 496.144 sacos, transportados pelos carros da Companhia e pode-se avaliar em quantia igual os transportados por carros particulares; os nove ou dez mil contos de réis empregados nessa obra nacional tem contribuído par ao aumento da riqueza pública e o finado senhor Lage, que foi dela criador, merecerá sempre os maiores elogios, quando se falar em serviços prestado ao país.
     Durante essa digressão estatística mudaram-se os animais da nossa diligência e a nova parelha  nos arrasta com a mesma rapidez que a precedente. 






     O Piabanha corre à nossa esquerda, ora límpido e calmo, ora quebrando-se em cascatas no seu leitos de rochedos; já vão surgindo à nossa frente os declives rochosos da garganta do Taquaril que o rio atravessa, precipitando-se por uma estreita fenda de granito; chegamos a um dos pontos mais pitorescos dessa serra; à direta vede aquela cascata c hamada Jacubá, parece uma grande toalha d'água de quase oito metros de largura; ela é tão regular que antes parece uma obra de arte do que da natureza.
     O vale estreita-se cada vez mais, imensas paredes de granito elevam-se de cada lado da estrada; seus flancos quase perpendiculares conservam nas suas anfractuosidades alguma terra, onde cresce uma multidão de bromélias. Esta parte da estrada é quase toda lavrada na rocha, pendura o precipício no fundo do qual rolam iradas as ondas do Piabanha.
     Neste lugar do Taquaril selvagem e majestoso existe o único abaixamento desta serra que tínhamos à nossa esquerda desde Petrópolis, e portanto o único desfiladeiro possível para passar do vale superior do Piabanha ao da Posse.
     Os trabalhos consideráveis feitos nesta estreita passagem, testemunham o poder, a vontade e a perseverança humana; com efeito, representam-se os primeiros mineiros, suspensos a umas cordas sobre paredes verticais, batendo o duto granito; por baixo dos pés as detonações das minas repercutidas pelos ecos confundiam-se com os estrondos das massas de pedras arrancadas pela pólvora e que de queda em queda precipitam-se no fundo do abismo.






     Na época da construção desta parte da estrada, Sua Majestade o senhor D.Pedro II, que mostra sempre os mais vivos interesses por todos os melhoramentos do país, quis verificar esses trabalhos audaciosos; construiu-se para esse fim, sobre umas barras de ferro fincadas no rochedo, um caminho suspenso, vacilante e frágil, sobre o qual o Imperador passou duas vezes à cavalo, com toda a calma, como se estivesse passeando na Quinta de São Cristóvão.
     Mudamos a direção; o sombrio desfiladeiro transposto e após alguns ziguezagues, vemos abrir-se um gracioso vale, no meio do qual se avista um grupo de casas brancas: é a TERCEIRA MUDA.

                                                                        POSSE
     Esta estação é, e será por muito tempo, de grande importância para a Companhia; ao redor dela convergem todos os produtos da zona cafeeira do Rio Preto. O seu vale é pitoresco, os rochedos à nossa esquerda e as verdejantes plantações cafeeiras, fazem um contraste agradável à vista. 





     O Piabanha, que corre límpido e tranquilo no meio dessas campinas, parece descansar de sua corrida furiosa, depois do desfiladeiro do Taquaril; os altos montes que nos cercam, cortados de vales que se desenvolvem em várias direções, contribuem para dar à paisagem um aspectos dosm ais pitorescos. 
     Passamos defronte do hotel, a dois passos abre-se o vale que conduz à Aparecida; a Companhia fez a despesa de um princípio de caminho de distrito, porém o governos não tendo julgado conveniente dar o seu apoio para a conclusão das obras, o senhor Lage achou de seu dever suspendê-las. 
     Chegamos à ponte da Posse, atravessamos ainda uma vez o nosso companheiro de Petrópolis, o Piabanha,  e na sua margem esquerda continuamos nossa corrida.
     Este ajuntamento de casas, deste lugarejo,esta quase aldeia, chama-se o Areal.
     Desculpem, leitores benévolos, se por um momento eu abandono a estrada para falar de coisas que me são caras!
     A dez minutos, à nossa esquerda, no alto dessa eminência, acha-se uma pequena fazenda: seu nome é Saudade! Palavra que nas línguas estrangeiras é intraduzível.
     Achei nesta fazenda uma hospitalidade tão franca que nunca esquecerei; seu proprietário, o senhor Benjamin Weinschenk, a quem pertence a maior parte das casas que vemos, quis sem dúvida perpetuar a lembrança de minha passagem na sua casa; porque, segundo me consta, conserva ele ainda a denominação de Châlet  que dei a uma casinha que construiu então e que se acha perto desse saudoso retiro. 





     Mas, voltemos ao Areal, sem esquecer todavia que nesta fazenda eu vi a mais bela plantação de café dos arredores. Este lugar é um ponto comercial importante, por causa dos diferentes caminhos do Rio Preto, da Aparecida e do Carmo, lugares de muita produção, que confinam ali. Portanto não é raro encontrar, caminhando, um grande número de mulas, carregadas conforme os usos do país e andando em longas fileiras atrás da madrinha, cujos arreios são ornados de chapas de prata, de campainhas e algumas vezes de uma boneca vestida e orgulhosamente posta na parte superior da cabeçada, de modo que fica entre as orelhas. Estes ouropéis, na crença ingênua dos tropeiros, são destinados a simbolizar a protetora da tropa.
     À direita é a junção do Rio Preto e do Piabanha, uma ponte d emadeira torcida e balançando, na época em que escrevemos essas linhas, e uma outra mais longe que não podemos ver, faziam com as da Companhia o mais lastimoso contraste.
     Em redor de nós sobre as colinas aparecem longas linhas de arbustos; são as primeiras plantações de café importantes que temos encontrado, anunciando-nos a fazenda da Julioca, propriedade do major Koeller, filho do primeiro administrador e quase fundador da cidade de Petrópolis. 
     Alguns passos ainda e descemos na QUARTA MUDA.  





                                                                    JULIOCA
     Este pequeno edifício de pedras, assaz gracioso e original em suas formas, não prestou o serviço que dele se esperava; o movimento comercial nesta estação foi sem importância. Esta pequena casa avarandada que vemos, era em outros tempos a pousada de passagem do senhor Bulhões, engenheiro da estrada, quando fazia suas visitas de inspeção.
     Esta morada é muito pequena, porém encantadora. 
     Não é verdade que ali se viveria feliz com ela? Sobretudo se, mais venturosa que a Lisetta de Béranger, ela pudesse conservar sempre os seus vinte anos.
     Estamos no carro; correr mais depressa é difícil; descemos; à direita o Piabanha quebra-se em cascatas, transpondo por saltos sucessivos as diferentes camadas de rochedo que obstruem seu leito. Neste vale, tão ondulado e tão cheio de rochas desmoronadas, o sábio naturalista Agassiz achou os vestígios  de cascalhos de montes de gelo, que confirmam a célebre teoria do resfriamento do globo; pois tanto frio fez naquele lugar, como diz este grande professor, que não se pode negar que hoje a temperatura está longe de assemelhar-se à dos polos.
     Eis a ponte de Santanna; atravessamos ainda para a outra margem do Pìabanha. Esta ponte é enviesada, com grandes vigas e grades, com pavimento inferior e contravetement (peças oblíquas) superior; é a mais bonita de todas as que vimos e ainda veremos. Sua arquitetura faz dela um verdadeiro objeto de arte, elegante e leve.





     No tempo da sua construção uma das grandes vigas caiu no rio; imaginem o trabalho que foi preciso para retirá-la. 
     Estamos perto ou antes chegamos à QUINTA MUDA.

                                            LUIZ GOMES (OU CAMPO DA GRAMMA)
     Esta estação foi toda construída com madeiras: sistema americano. O interior é muito curioso; como solidez nada deixa a desejar, mas o preço elevado da mão de obra,  e ainda mais a dificuldade incalculável de se obter madeiras com facilidade, neste país de florestas virgens, pela falta absoluta de meios de transporte, há de restringir, e por muito tempo, a continuação desse sistema de construção.
     Entramos no Vale do Paraíba; a estrada é quase horizontal; estamos ainda perto de uma ponte sobre o Piabanha, que pela última vez vamos atravessar. Alguns quilômetros mais londe este pequeno rio irá levar o tributo de suas águas ao Paraíba. A ponte de que falo chama-se Carlos Gomes e é a última construída pelo engenheiro Bulhões, é de vigas tubulares e grades. Boa combinação do ferro empregado, leveza das vigas e força de sua construção. Mereceu essa obra de arte a honra de ser citada como modelo nas obras tecnológicas da Europa.





     Aqui estão longas linhas retas. As margens da estrada são guarnecidas profusamente de grandes e belas árvores. Vê-se ali grande quantidade de flamboyant. 
     À direita e à esquerda estendem-se várias florestas virgens e a vista abandona-se nessas cortinas de verdura. 
     Estamos enfim no Paraíba, nome derivado de duas palavras indígenas - Para-yba-  o qual toma nascença numa pequena lagoa na Serra da Bocaina, cinco ou seis léguas ao nordeste da cidade de Paraty, província do Rio de Janeiro.
     Vamos atravessar esse grande rio, sobre uma ponte de ferro de três arcos, de cinquenta metros de comprimento cada um; esta ponte, obra do engenheiro alemão senhor Keller, ultimamente encarregado de uma missão de exploração no interior do Império e atualmente na Europa, é um muito belo e seguro trabalho. É pena que considerações econômicas tenham feito sacrificar o aspecto monumental que lhe teria dado um maior pavimento e uma maior elevação acima da água. Apesar disto, é uma obra notável, tanto pela concepção quanto pela execução. A alvenaria fez e faz ainda a admiração das pessoas competentes.





     Um apito repercutiu  no ar. Um penacho de negras fumaças levanta-se acima de enormes edifícios de tijolos encarnados. Isso nos anuncia a Estrada de Ferro D.Pedro II, ponto de cruzamento das duas estradas. São onde horas e meia.
     Será porventura necessário dizê-lo?
     Neste momento, o que nos deve sobretudo interessar, segundo me parece, é que nos será possível almoçar e depois descansar. Só subiremos agora no carro depois da chegada do trem e ainda teremos de esperar sua hora de partida de costume, fixada a 1 hora e 55 minutos.
     Estamos no meio do caminho. O que pensais desta SEXTA MUDA?

                                                                    ENTRE RIOS
     Aproveitamos o momento de descanso que nos é dado, para dizer algumas palavras relativamente às rivalidades ocasionadas pelo cruzamento dessas duas estradas.
     Certamente estimas ver o progresso desenvolver-se nesse formoso país. E não foi sem experimentar viva emoção que temos saudado a primeira locomotiva que chegou até aqui; entretanto ficamos também penalizados vendo tanto trabalho, tanta inteligência e tantos esforços empregados  em um dos mais gigantescos trabalhos empreendidos  até então no Brasil, como esta magnífica Estrada União-Indústria, ficarem por isso mesmo inutilizados daí a pouco.





     O homem deve pois abandonar assim, o que lhe custou tantos cuidados e tantos sacrifícios para edificar?
     Defronte está a estação da estrada de ferro, maciça, pesada e, à nosso ver, pouco segura.
     Estamos certos de que os construtores desse edifício hão de desculpar a nossa franqueza, sobretudo quando souberem que podemos afiançar-lhes  ter visto essa construção tão bem construída aparentemente, não poder resistir a uma chuva um pouco mais forte; nem mesmo a uma ventania, sem que no dia seguinte haja necessidade de alguns consertos.
     No horizonte longínquo fogem as linhas das estrada de ferro, e o Paraíba anda vagaroso trazendo de nosso lado as suas ondas. Em breve vos faremos conhecer as suas curiosidades se este itinerário tiver a fortuna de vos agradar, caros leitores. As casas brancas que há um quilômetro perdemos de vista, são da fazenda de Cantagalo, propriedade da baronesa de Entre-Rios. Mais longe acha-se a cidade de Paraíba do Sul, inteiramente decaída de sua antiga importância, a estrada de ferro acabando de dar-lhe os últimos golpes.
     É 1 hora e 55 minutos. O condutor nos chama, subimos à diligência para continuar nossa viagem. 
     Desde Petrópolis, que é de 845 metros elevados acima do mar até aqui, onde não estamos mais que a 302 metros somente, descemos agora. Vamos subir a Juiz de Fora, a 721 metros. 
     Muitas v ezes subiremos e desceremos para atravessas as diferentes ramificações  da Mantiqueira e passar de um vale para outro.
     Estamos na Serra das Abóboras, que separa o vale do Paraíba dos do Paraibuna e Rio Preto. Ali penetramos por uma miniatura de túnel; depois de o haver transposto em um segundo, sendo este tempo mais que suficiente, apresenta-se à nossa ista um quadro bastante formoso. É a fazenda do finado Visconde do Rio Novo, Conde Palatino; a pequena capela que se destaca no azul do céu, no cume da colina,  termina o efeito do quadro.
     O Visconde, que residiu na Europa, introduziu na sua fazenda as máquinas e os aparelhos de cultura os mais modernos; seus produtos são expedidos diretamente para o velho mundo com a marca da casa; ainda uma prova evidente dos conselhos judiciosos do senhor Lages aos lavradores do Brasil.
     Todos os terrenos que vemos são de uma grande fertilidade. Podemos julgar pelas formosas plantações de café, milho, arroz e mandioca, que nos circundam e fogem atrás de nós. 
     Já descemos ao vale do Paraibuna. Uma encantadora amostra de floresta virgem nos proporciona uma sombra mais agradável. Em breve um largo rio, o Paraibuna, vai apresentar-se a nossos olhos. Ele serve de limite às duas províncias, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
     A propriedade que alcançamos à esquerda, pertence ao fazendeiro Antônio Rodrigues Pinto de Andrade, filho do falecido e honrado Barão do Piabanha. Jamais me será possível elogiar bastante esse fidalgo, tão querido enquanto vivo. Não tive a honra de conhecê-lo particularmente, porém tive a de ser apresentado a seus filhos! Pareceram-me justificar o adágio "tal pai, tais filhos".
     Tres minutos ainda e chegamos à SÉTIMA MUDA.

                                                                          SERRARIA
     A estação é construída em forma de chalé. Ela tem uma certa importância para a Companhia, por causa dos produtos que ali chegam de Mar de Espanha e até de Leopoldina.
     Uma pequena ponte de madeira, sistema americano, conduz o viajante à fronteira mineira. A estrada costeando e atravessando em três pontes diversas o rio Cágado, chega afinal à pequena cidade de  Mar de Espanha, situada a 32 quilômetros de Serraria.
     A ponte e a estrada foram feitas à custa da Companhia União-Indústria, cujo nome ainda por mais uma vez veremos ligado aos melhoramentos do país.
     De Serraria à Paraibuna seguimos constantemente o rio. A estrada é plana e sem habitações. Ela seria , na verdade, monótona, sem a vizinhança da água que parece ali estar à propósito para romper algum tanto aquela solidão. Uma avenida de bambus de quatro quilômetros  desperta nossa atenção para apresentar uma espécie de ogivas contínuas. Mais longe um pequeno bosque, onde a estrava vai serpenteando entre árvores e rochedos. Faria julgar estarmos passeando num parque inglês.





     A estrondosa e grande cachoeira do Paraibuna contribui para entreter o viajante nessa ilusão.
     à nossa esquerda eleva-se um velho casebre: a velha Paraibuna. Era outrora uma espécie de alfândega, onde se recebiam os direitos sobre o ouro e os diamantes que vinham de Minas. Ali, o intrépido Paes Lemes abriu uma passagem, no meio dessas solidões, e traçou a estrada entre os campos de Barbacena e a cidade de Paraíba do Sul. 
     À nossa frente levanta-se uma colossal pirâmide, a pedra do Paraibuna. Um imenso montão de granito, cuja parede vertical eleva-se de um só lance a mais de 400 metros de altura.
     Enormes pedaços foram se destacando dessa massa imponente e rolaram aqui e acolá. Alguns foram até o leito do rio e estorvando-lhe o curso formaram a ruidosa e selvagem Cascata do Inferno. Vamos chegar à décima estação. Antes de descer do carro permitam-me uma digressão. 
     A meia circunferência que se forma perto dessa pequena igreja, atrás dessas estrebarias, é o princípio da Estrada das Flores, lindo caminho de distrito cuja extensão é de 24 quilômetros. Ele segue o vale do Rio Preto. A Companhia foi auxiliada na execução dos trabalhos pela cooperação ativa dos proprietários limítrofes, que compreenderam perfeitamente as vantagens resultantes para eles de uma saída que semelhante via daria a seus produtos.






     Este caminho está concluído há muito tempo, disse o engenheiro encarregado de sua construção, o senhor Audermas. É sobretudo a esse amigo que devo as informações que me ajudaram a fazer este pequeno livro. Creio portanto dever aproveitar a ocasião que se oferece para lhe exprimir toda minha gratidão. Tanto mais que foi na sua casa, na Paraibuna, e seguindo seus conselhos que eu resolvi ser perseverante e prosseguir em outros trabalhos que logo serão publicados .
     Mas nós chegamos. Paramos 5 minutos na OITAVA MUDA.

                                                                           PARAIBUNA
     Derivado de três palavras da língua indígena - pará-ý-b'una-  grande rio de águas escuras- e devendo sua origem à junção dos rios Barros e Preto, Paraibuna forma um gracioso panorama. Nosso desenho, copiado da fotografia, representará melhor do que eu saberia fazê-lo com uma longa descrição. 





     Gostamos dessa estação! O posto dos soldados e o garbo dessa boa gente colocada à entrada da ponte. Contaram-nos que aquelas sentinelas eram encarregadas de guardar a fronteira que separa a província do Rio de Janeiro da de Minas Gerais. Fronteiras muitas vezes mais difíceis de transpor que a grande muralha da China.
     A grade que cerca a entrada da ponte fecha-se às 6 horas precisas da tarde. Ela somente se abre às 6 horas da manhã. É assim que, durante 12 horas, é proibido aos habitantes de uma província chegar no território vizinho , a menos que seja particularmente conhecido da sentinela. Ou viajante audacioso que, pisando em sapatos gastos, pule a famosa barreira, o que aconteceu a este vosso criado.
     Mas deixemos porém esses miseráveis vexames de um contribuinte atrasado. A estrada está aberta diante da diligência. Passamos para o outro lado dessa ponte de 100 metros de comprimento. Um talha-mar dos arcos dessa ponte é inteiramente construído sobre um rochedo.  
     A esta ponte liga-se uma página da história do Brasil. Em 1842, na época dos sanguinolentos acontecimentos de Minas, os rebeldes a incendiaram. Era ela então de madeira. Este fato foi por muito tempo exprobrado a um dos maiores vultos políticos do país.
     Ao sair dessa ponte, entrando na terra mineira, nossos olhares são paralisados por uma placa de mármore branco selada na rocha, que costeia a estrada. Sobre esta placa estão gravadas as belas palavras, proferidas por Sua Majestade D.Pedro II, na época da inauguração da estrada. Jamais tão nobre estímulo mereceu tanto ser transmitido à posteridade.
     Damos pois o texto:
     "Uma empresa cujo fim é a construção de uma estrada que ligue duas províncias tão importantes e que, continuando talvez para o futuro até às margens do segundo rio do Brasil, reunirá os interesses de seis províncias, de certo merece ser chamada patriótica.
     Afianço-lhe, pois, a continuação de minha proteção, e creio que não poderia melhor agradecer os sentimentos  de amor e fidelidade que acaba de me manifestar em nome da Companhia."
     Até a próxima estação pouco há de interessante. Lançamos um último olhar sobre o Paraibuna que acaba de receber o Rio Preto, não obstante ser mais considerável do que ele. Em breve vamos abandoná-lo para não mais o encontrar senão em Mathias, transformado em um simples regato.
     Não corremos mais com a mesma rapidez que há pouco. Ainda que nossa marcha seja acelerada, temos que contar 10 quilômetros. Por mais suave que seja a subida, as mulas sentem o serviço que lhes coube.
     Passamos a Rancharia. Esta pequena cidade nascida de ontem  é a mais importante conglomeração de casas que temos encontrado desde Petrópolis. Ela possui duas igrejas, um chafariz no meio da praça grande, um juiz de paz e eleitores. O que mais é preciso? dizia La Fontaine.
     Nossas mulas responderiam, se lhes fosse possível, que é o descanso que achamos na NONA MUDA.

                                                              SIMÃO PEREIRA
     Nada de muito importante; nada mesmo de curioso nesta estação. Seguiremos para Mathias.
     À nossa esquerda algumas casas cobertas de colmo; é um ensaio de colonização alemã tentado por um jovem fazendeiro, o senhor Dr.Duque, homem inteligente e entusiasta do progresso. Esperamos que esta tentativa de colonização será coroada de feliz êxito, posto que algumas experiências feitas em outros lugares com os mesmos elementos tenham tido funesto resultado.
     Atravessamos uma gargante elevada de 593 metros acima do nível do mar e descemos de novo para o vale do Paraibuna que havíamos deixado há 8 quilômetros atrás. Aqui está ele serpenteando por um valesinho costeado de verdes pastagens. Essa paisagem é graciosa como um idílio. Essa descansa a vista da dureza das brenhas e matas que há tanto tempo limitavam o horizonte.
     Esta fazenda é propriedade do barão de Bertioga; foi uma das primeiras onde se plantou o café. Constrangido e violentado, por assim dizer, o Barão, que tinha o nome plebeu de Silva Pinto resolveu empreender essa cultura, à qual deve sua colossal fortuna.
     O Barão era empregado do senhor Valle da Gama, zeloso propagador da nova planta, cuja importância tão bem adivinhava, obrigou o seu subordinado a plantá-lo no meio dos campos de milho, que constituía toda a produção agrícola daquela época. 
     Estes arbustos frutíferos, como os chamavam os fazendeiros rotineiros formam hoje, sem dúvida alguma , o mais produtivo ramo da fortuna do Brasil. 
     Ainda alguns grupos de coqueiros, formando graciosos quadros, que estariam em lugar apropriado no álbum de um artista, e chegamos à DÉCIMA MUDA.

                                                                       MATHIAS
     É uma antiga barreira, onde pagavam-se os direitos sobre o ouro e os diamantes vindos de Minas Gerais. Enormes quantidades desses preciosos minerais passaram neste lugar. A riqueza do país se apresenta hoje sob outras formas: carros enfileirados, carregados de café, de algodão e de outros produtos agrícolas provam suficientemente o que afirmamos.
     À nossa direita, um apequena cascata cai em alva espuma do alto de um rochedo. Porém subimos ao carro. O dia vai declinando e nosso condutor parece com pressa de chegar. 
     Passamos além do grupo de casas que formam o lugarejo de Mathias, atravessamos uma zona onde nada de interessante se apresenta à nossa vista, depois atravessamos o Piabanha sobre uma ponte de madeira d estilo antigo, que difere muito das que temos visto. Esta ponte se chama de Zamba. Foi construída para a antiga estrada de Minas e foi utilizada para a passagem da nova.
     Subimos um declive suave e contínuo: é a passagem da Marmela. A estrada gravada de distância em distância num granito porfiróide  costeia os flancos da montanha e vê-se um abismo onde o Paraibuna quebra-se em cascatas.
     Ela contorna também eminências arredondadas e deixa-nos ver por momentos encantadores panoramas. A subida da Marmela é, depois da passagem do Taquaril, o lugar mais pitoresco e também o mais caprichoso. E é também o que custou maiores despesas para a construção da estrada. Chegamos à PENÚLTIMA MUDA.

                                                               PONTE AMERICANA
     Enquanto mudam as nossas mulas, examinemos o sistema de construção dessa ponte. Ainda que feita com materiais de pequenas dimensões, é notável por sua solidez e à facilidade que oferece. 
     No Brasil esse meio merece ser generalizado, em razão da grande abundância de madeira de construção de excelente qualidade e que, apesar disso, são na maior parte das vezes queimadas no desbravamento, por falta de emprego imediato.





     Encaminha-mo-nos para Juiz de Fora. Alcançamos o alto da garganta da Graminha, elevado à 745 metros acima do nível do mar. É o ponto mais elevado que temos encontrado desde Petrópolis.
     Essa passagem foi escolhida para evitar o grande desvio feito pelo rio que serpeia soba a nossa vista. Depois de uma descida assaz rápida, vamos transpor a última ponte construída em nosso caminho. Esta ponte chama-se João Carlos. É de arcos de madeira. Esta obra é toda do francês senhor Flagelat, engenheiro das minas, neste tempo vindo da França com licença temporária para o serviço da Companhia. Recomendamos esta obra às pessoas competentes.
     Em torno de nós surgem algumas habitações, sentinelas avançadas de Juiz de Fora. O vale alarga-se: vamos chegando. À nossa esquerda, o cemitério com sua capela. Os monumentos funerários que a rodeiam são de tijolos.
     Defronte de nós levanta-se o rochedo chamado Alto do Imperador. Abaixo a cidade com sua longa linha de casas.
     A diligência pára num grupo de gentes e de carros. São os empregados dos dez ou doze hotéis que vêm recrutar os viajantes. Alguns apeiam-se. Nós vamos mais longe. Estamos na rua do Imperador. É costeada por casas novamente edificadas. Este progresso é ainda devido à Companhia.






     Este lugarzinho é hoje o empório comercial de Minas Gerais e um pouco do Goiás.
     Dois quilômetros mais à oeste e chegamos à ÚLTIMA MUDA.

                                                      ESTAÇÃO DE JUIZ DE FORA
     Há, na elevação à nossa direita, um lindo castelinho, propriedade do finado senhor Lage, graciosa amostra do estilo renascentista italiano. Este castelo é rodeado de um parque desenhado, plantado e conservado com um gosto que nos dá a ideia do que devia se o proprietário: tanques de água límpida, onde nadam belos cisnes brancos e pretos, ilhas de bambus, viveiros naturais onde cantam e gorjeiam milhares de pássaros, jardins cheios de flores as mais curiosas e as mais raras plantas de interesse particular tornam este domínio um pequeno paraíso terrestre.
     Em junho de 1861 a família imperial aí residiu. Nada poderia descrever a magnificência das festas dadas pelo senhor Lage à seus augustos hóspedes.
     Como fotógrafo fazia parte dos convidados. Já tinha assistido a muitas festas deste gênero e nunca tinha presenciado uma festa tão deslumbrante.
     Depois de 1861 o Imperador, por  vezes, honrou este domínio com sua presença.
     A todo viajante o senhor Lage deixava visitar com benevolência este pequeno éden se tivesse a felicidade de encontrá-lo. Encarregava-se com a melhor vontade em servir de cicerone.





     Defronte do castelo estão os edifícios da estação, escritórios e armazéns. Atrás estão as cavalariças. À esquerda, na eminência, acham-se as oficinas e suas dependências. Na margem da estrada, entre a estação e o hotel, um edifício de balcão estilo de chalé, que serve para alojar os hóspedes ilustres que a Companhia recebe frequentemente.
     Na praça defronte do castelo vê-se uma igrejinha. Nada de extraordinário na sua  construção e decoração. Na colina à esquerda, as habitações dos empregados da Companhia. Depois o Hotel União. Vamos ver se ali pode-se jantar. 
PS: Este estabelecimento é um doa mais bem organizados. Acha-se ali tudo que se pode desejar, da mesma maneira que nos melhores hotéis da Europa. Infelizmente o tempo e os meios faltar-me-ão para dar aqui um desenho desse edifício. Ali há banhos quentes, frios e de chuva, bilhares, piano, salões de leitura e de conversa, jardins, parques e varandas. Situado sobre a primeira vertente da Serra da Mantiqueira, esse lugar goza de um clima salubre e temperado.
     Amanhã, depois do passeio obrigatório no jardim dos senhor Lage, não esqueçamos a colônia D.Pedro II, florescente aldeia fundada pela Companhia. Depois iremos ver também a escola agrícola com sua curiosa e interessante coleção de instrumentos aratórios e seus animais raros.
     Depois, se o passeio à sombra das grandes árvores tem atrativos para vós, iremos visitar a bela cascata que forma o fundo do quadro da paisagem que rodeia a estação. Veremos o bosque dos príncipes com sua lagoa tranquila e sua cascata murmurante; o bosque da Imperatriz no meio de um a floresta de palmeiras e, como remate, o Alto do Imperador, de onde paira-se sobre um horizonte imenso.
     Descobriremos todas as ramificações da Mantiqueira (antigamente esconderijo de salteadores) e sob nossos pés,  como infinitamente pequenos,  o formigueiro que se agita sem ruido sob o nome de |Juiz de Fora.






                                DO RIO DE JANEIRO À PETRÓPOLIS POR ENTRE RIOS
                                      ESTRADA DE FERRO DE DOM PEDRO II
     A estação é situada no Campo de Santana. Há tílburis no interior da cidade para conduzir os passageiros. O preço é de 500 réis. Os carros de 4 rodas custam 2$000.
     Também há bondes que tomam-se no Largo de São Francisco de Paula. Custam 200 réis por pessoa dali até a estação. 
     Os trens do caminho de ferro partem todos os dias às 6 horas da manhã. No sábado há trens de passeio que partem ao meio-dia.
     Os preços das passagens acham-se nas tabelas colocadas na sala de espera. 
     Em Entre Rios o trem pára um hora para que os viajantes possam descansar e almoçar.
     Um hotel perfeitamente organizado corresponde a todas as necessidades das pessoas que querem ir até aí.
     Para os que devem ir adiante, isto é, à Juiz de Fora ou à Petrópolis, a diligência sai meia hora depois do meio dia para chegar a um ou outro lugar do destino pelas 6 horas da tarde.































segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

ANNET DOUSSEAU e SUZANNA MANDRAL DOUSSEAU

              Queridos leitores,

              Recentemente, numa visita familiar à Itatiba, SP, para rever nossa tia SUZANA (ZANITA) depois de muitos e muitos anos, tive a enorme emoção de encontrar em casa de JUNINHO, um de meus primos, preservado com todo cuidado possível, o  álbum de fotos de meus avós MERITA e EVARISTO, que tanto me encantou em minhas férias de infância e  que eu julgava desaparecido. Durante todo os anos de pesquisa até a publicação de nosso livro, lamentava não tê-lo mais sob meus olhos adultos, que agora saberiam tirar proveito e registrar para sempre as histórias contidas naquelas preciosas imagens. 
             Imediatamente fotografei cada uma da maioria delas, dando graças a Deus por haver recentemente trocado de celular, tendo eu, agora, uma câmera de melhor qualidade. Algumas delas, sem a saudosa presença de minha avó, não puderam mais ser identificadas com certeza, apesar da excelente memória de tia Zanita. Nos últimos dias, com a ajuda de minha mãe LYDIA, minha tia SERRATE e algumas de suas primas, pudemos identificar todas, que vou pouco a pouco apresentar aqui para vocês, na página de "FOTOS ANTIGAS". Mas, para abrir esse trabalho com chave de ouro, deixo aqui para todos vocês, em lugar de honra e destaque, mais uma foto de meus bisavós ANNET e SUZANNA. Ela estava um tantinho danificada, mas meu irmão AMARILDO fez a gentileza de restaurá-la para nós. Nossa querida amiga PASCALE LAGAUTERIE indagou-me sobre a data provável dessa foto. Num primeiro momento, achei que fosse no mesmo dia das duas únicas que eu tinha antes dessa. Depois, observando melhor, alguns detalhes, observei que pode haver, sim, alguns anos de diferença entre elas. Provavelmente não teremos como esclarecer isso de forma definitiva. Fiquem atentos nos próximos dias. Temos muitas ainda para compartilhar por aqui.  Então... ei-la!






quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

FELIZ ANIVERSÁRIO, GUARARÁ!!!

Sim! Você pode me perguntar a razão de tanta festa afinal, GUARARÁ já não é nenhuma "mocinha" e nunca comemorei aqui seu aniversário. Mas esse ano é especial, para mim. Porque, nos últimos tempos, tenho acompanhado através de sua página no Facebook, chamada "GUARARÁ PATRIMÔNIO HISTÓRICO", todo o esforço apaixonado de uma parte daquela comunidade no sentido de não só preservar mas, principalmente resgatar e reescrever  sua história, preenchendo lacunas e esclarecendo tanto quanto possível as obscuridades de décadas e décadas. Parabéns, GUARARÁ! Parabenizo também a todos os envolvidos nessa "onda do bem" de preservação, na figura gentil e dedicadíssima de RODRIGO. E VIVA GUARARÁ!!!

Abaixo, transcrevo o texto publicado hoje naquela página.

                                                                       




"Em 05/12/19 nosso estimado município de Guarará completará seus 129 anos de emancipação política, sendo abençoado durante todo este tempo pelo Divino Espírito Santo, desde a sua fundação em 1828. A começar pelos primeiros desbravadores destas terras ainda inabitadas, passando pelo período de povoação, crescimento, emancipação e chegando aos dias atuais, não foram poucas as pessoas com suas famílias e descendentes que deixaram um pouco da sua contribuição para o progresso destO tempo passou, deixando suas marcas nas ruas e construções centenárias, sendo que muitas não sobreviveram na contemporaneidade, para contar um pouco da história daquela época remota, onde não havia uso de tecnologias e a vida passava vagarosamente, ano após ano, entre as nossas verdejantes montanhas.
O tempo histórico acelerou, o silêncio e o barulho dos carros de bois, carroças, charretes e cavalos foi ficando cada vez mais distante e atrelado à memória dos antigos habitantes. No seu lugar, aos poucos, foi chegando o barulho do automóvel e a introdução de novas tecnologias para o conforto da vida moderna, algo inexistente no passado. Assim, a história caminha lenta ou aceleradamente pelas ruas de nossa cidade ao longo de seus 129 anos de vida, deixando e apagando marcas na construção de nossa memória histórica.
Parabéns, primeiramente arraial a partir de 1828 e distrito do Espírito Santo do Mar de Espanha em 1868, em seguida emancipado com o nome de Vila de Guarará em 05/12/1890; na sequência em 1894 Vila do Espírito Santo de Guarará; na década de 1920 novamente Vila de Guarará, até ficar somente o termo Guarará a partir do final da década de 1930, como conhecemos nossa cidade nos dias atuais. Tantas foram as mudanças que não apagaram e sim enalteceram sua história e memória ao longo de mais de um século. Parabéns, Guarará, terra amada e querida por várias gerações, desde a sua fundação até o presente momento de 05/12/19."





sábado, 19 de outubro de 2019

CHICRE FARHAT - EM MEMÓRIA.

          
                                                      
FONTE: FACEBOOK DO PRÓPRIO


           No dia 09 de Outubro de 2019, CHICRE FARHAT, o polêmico, o sincero, o vulcão, o poço de sentimentos e de palavras diretas e verdadeiras, nos deixou. Passados alguns dias, desejo que tenha conseguido toda compreensão de coisas e pessoas que sempre buscou e que, nesse momento, tenha apreendido a ideia/realidade de Deus, aquela que nos dá consolo nessa terra. Que, na presença d'Ele, tenha encontrado todas as respostas e toda paz que possa haver.
           Embora tendo notícias de sua existência desde minha infância passada em BICAS, foi só na idade adulta, quando despertei para a pesquisa histórica de minha família, que passei a buscar a compreensão e o conhecimento de seus escritos, de sua pessoa, de suas palavras. E foi aí que também tomei conhecimento de seu irmão EMIL e de seu primo FUED, que me forneceram material de grande valor, embora a níveis diferentes, para os primeiros "goles" da tão rasa, superficial e incompleta história de nosso pequeno pedaço de chão. Sem a contribuição dessa família, me pergunto quão ainda mais rasa e árida seria a compreensão da intimidade sócio-histórica de BICAS. 

                                                 


         Mesmo tendo vivido na mesma cidade que CHICRE, sempre me pareceu maior a distância entre MADUREIRA e IPANEMA que entre MADUREIRA e BICAS. Cariocas entenderão. Devido a isso, nunca o conheci pessoalmente. É de minha convivência com o mundo e as pessoas que foram o centro nevrálgico de seu coração exaltado e cansado que nasceu me interesse em sua pessoa, em sua história, em suas contradições, em seus sentimentos e palavras sempre tão contundentes. Chego a crer que eu, pessoalmente, nunca conheci alguém tão sincero em minha vida. Se um dia a luz de verdade, daquelas que clareiam e não daquelas que, na verdade, buscam perturbar a visão, se voltar para sua obra, suas queixas e questionamentos, talvez BICAS comece a caminhar para o futuro e se "desamarre" de tanta história social sem base na realidade histórica. Também sou avessa a mumunhas e enaltecimentos de falsas verdades. 
        Seja lá o que for que o senhor tenha podido encontrar "do lado de lá", certamente foi mais feliz do que nessa terra, nos últimos anos. Isso me consola e, tenho certeza, a todos aqueles que o queriam bem e admiravam. Obrigada por cada gota de atenção que me dispensou em nossos embates filosófico-religiosos  e em nossas divagações históricas. Obrigada também por suas obras, indispensáveis. A maior delas? Para mim, "O RESGATE". Diga para seu irmão EMIL que o "DINHEIRO NA ESTRADA" dele é quase meu livro de cabeceira. E não deem por aí muito trabalho à dona ÁSSIMA, depois de matarem as saudades...

                                               
FONTE: FACEBOOK DE WALESKA PENCHEL


       Respeitosamente, 

Marly Mayrink
                                                 

Para vocês, leitores, uma pequena coletânea de imagens de CHICRE FARHAT e de sua obra.


 A CASA ESTÁ ALI 


                                         

"Na praça, minha casa está ali.
 Fechada ou aberta, sempre
 na resistência.
 Enfrentou meio
século de cocho e cabresto.
Abro a porta, ando pelos 
corredores, quartos.
Sombra, vultos, ouço passos,
a memória se acende.
Profetizava Mario Quintana:
- "Não importa que a tenham
demolido. A gente nunca esquece
a velha casa onde nasceu."
Meu pai morto, na sala de visitas.
Setembro de 1940.
Desesperada, aos prantos e 
lamentos, minha mãe sofre.
Nove filhos torturados na dor.
Ao sair o enterro, sete irmãs
nas janelas gritam e choram.
A Banda de Música dos ferroviários
toca a Marcha Fúnebre de Chopin.
Minha casa está ali, tão grande,
de esquina, como flor de luto,
intocável.
Quintal, jardim, horta, árvores
frutíferas, enorme pé de abacate e
galinheiro. Mundo lúdico.
No porão, a lenha cortada por Isidoro,
que também esvaziava engradados
de cachaça, decantando para o 
Bar Memphis.
Pastel do Tião, nosso empregado e 
amigo há trinta anos.
( Minha casa está na Praça do
democrata Raul Soares,8, com o busto
do ex-ditador fascista Getúlio Vargas )
Bofetada na grandeza do nobre gesto
da DOAÇÃO.
Tanto desprendimento, o! Deus.
Por que? Para quem?
Para minúsculas amebas,
sem presente, passado,
tradição, sem história,
e biografia de apagada e
vil tristeza."
        
DESABAMENTO DA ESCOLA


"AV. GOVERNADOR VALADARES,foi a homenagem pendurada na na raquítica biografia do "GOVERNADOR"SEM VOTO, ZERO À ESQUERDA.Reles "INTERVENTOR" do ESTADO NOVOfascista, do Getúlio. Traiu Minas de Tiradentes e o Brasil de Ruy Barbosa.O Grupo Escolar Cel. Souza, da rua D.Anna,o único da cidade desabou, em surdo estrondo, em noite de chuva. Caiu de podre. E se de dia acontecesse a tragédia, alunos eprofessores presentes?OITO ANOS, BENEDITO VALADARES largouao chão o monturo lambão do desgoverno.OITO ANOS, o lixo escolar apodreceu na terra.Em porões úmidos e fétidos de velhas casas,nos salões de catação de café, prosseguiramas aulas.Alunos sentados no chão, sem carteira, quadronegro, banheiro.Desastrado INTERVENTOR da ditadura Vargas,comovida, minha geração agradece esses anos de chumbo e ultraje.Na AV. GOVERNADOR VALADARES, quandopor lá passamos, fazemos o sinal da cruz.Sem erro, na Reta está seu nome..." 



                                              
Marcada em vermelho, a casa da família Farhat. O terreno foi doado pela família para a construção do CENTRO CÍVICO D.ÁSSIMA FARHAT, onde também se localiza a PREFEITURA DE BICAS. Marcada em verde, o lindo e demolido imóvel onde, anteriormente, funcionava a prefeitura da cidade. A casa da Família FARHAT está em frente à linha férrea e vizinha ao terreno das Oficinas da Rede Ferroviária, no Centro da cidade. Marcado em azul, o prédio onde funcionava o Grupo Escolar da cidade, antes do desabamento. FONTE: FACEBOOK DE CHICRE FARHAT

DIREITAS PALAVRAS

"Vim para o canto do cisne, numa finita plumagem, como pobre folha amarela de outono. Olho o verde amanhecer das montanhas, campos orvalhados, a beleza da fonte suave cantando, sinto o refinado ar da infância, o imenso arco azul leve do céu, onde sonhos foram sonhados, bruma dos esquecimentos, a alvorada de neblina. Tudo me fala e entendo: escuto rosas e girassóis desses canteiros de lírios.  Inclino-me ante criaturas, que me acolheram, resgato dívidas, e deposito o mesmo número de lágrimas da gratidão.Há abrir de baú, onde guardo afetos.Ainda ouço o rouco apito da Oficina, de 117 anos. Abraço o irmão ferroviário, largado só na estrada, em férrea manobra.Arrancaram trilhos, que tantos sonhos conduziram. Generosos, nos  deixaram o carvão, a fuligem e a graxa.Falta-me a mesma força, ando lento, o coração amparado na muleta do "marca passo." Por mais de meio século, na tribuna, jornais, livros abri horizontes.Se me permitem a confidência:DOAMOS, eu e irmãos, valioso tesouro de fundas lembranças, que ainda doem, por não esquecê-las. Ainda ouço vozes.Nenhuma esperta nomeação, qualquer verba ou troca, projeto algum reivindiquei para mim. Nada possuo, sequer efêmero pedaço de chão, onde cair morto.Assessor Especial do prof.Bilac Pinto, Secretário de Finanças do Gov. Magalhães, trouxe à BICAS, o GRUPO ESCOLAR RETTO JR., a CAIXA ECONÔMICA ESTADUAL e a BIBLIOTECA PÚBLICA, fora o material escolar e a montagem de cantinas para vários Grupos. Nesta angústia do tempo, tem a consciência a mesma leveza dos belos pássaros coloridos de minha terra.Ah! perguntas sem palavras.Alguma mágoa esquecida, ou remota culpa inocente, busco perdão.Poupou-me Deus o sentimento do rancor e da ingratidão."



Descerrando uma placa em sua homenagem. FONTE: Facebook de CHICRE FARHAT


Folder exibido no COLÉGIO ELITE, quando CHICRE FARHAT recebeu a alegria e a honra de ser nomeado patrona da biblioteca daquela escola. 

NOVENTA ANOS




"HOJE, DIA 12 DE FEVEREIRO,TOMEI DERRADEIROS REMÉDIOS DA INCERTA SOBREVIVÊNCIA. DIA 5 DE MARÇO, PRÓXIMO, CHEGA AOS NOVENTA ANOS DE IDADE.
DA VIDA, NÃO ESPERO MAIS NADA. ACABOU. FORAM-SE MEUS PAIS, IRMÃOS, PARENTES E AMIGOS, COLEGAS DE TODOS OS TEMPOS: DA INFÂNCIA, DO PRIMÁRIO, NO EXTERNATO STA. TEREZINHA, DO SECUNDÁRIO E CLÁSSICO, NO INSTITUTO GRANBERY, INTERNO, SETE ANOS, EM JUIZ DE FORA, E NO RIO, EM 1947, NA UFRJ, ONDE CURSEI DIREITO, E O CONCLUI, EM 1951
,COMO ORADOR DA TURMA.
EM GRANDE PARTE DESSE TEMPO, PARTICIPEI NOS JORNAIS, LIVROS, NA TRIBUNA, COMO CANDIDATO A DEPUTADO ESTADUAL, NUMA DOUTRINAÇÃO CONSTANTE (SOB AMEAÇA E TENTATIVA DE SUBORNO), VISANDO À FORMAÇÃO DE LIDERANÇA NA CIDADE, AFINAL, RESULTANDO NA ELEIÇÃO DE DOIS NOVOS PREFEITOS, DISTANTES DOS VELHOS TEMPOS DA MIÚDA POLÍTICA DO COCHO E CABRESTO.
APAGA-SE A ESPERANÇA, FIMBRIO HORIZONTE DISTANCIA-SE. SOFRIDAS AUSÊNCIAS FICAM. A SAUDADE DO MOMENTO DE PERMANENTE REBELDIA. SINTO, MEU TEMPO MADURO SE DESLIZA, IRREFREÁVEL, PARA O FIM.
CURVAS DA EXISTÊNCIA, MAIS DO QUE A NOITE, OBSCURECEM O QUE FICOU PARA TRÁS. VIVEMOS O FASTÍGIO DAS CORES E FORMAS HUMANAS. GERAÇÕES NOVAS SOFREM DESSA CONVERSÃO DE VALORES.
DESEJA A MORTE SE APROXIMAR DE NÓS A TODO INSTANTE.
ELA MESMA É COISA DE INSTANTE. (TALVEZ TENHA QUE ANDAR MAIS UM BOCADO ANTES DE ENCONTRÁ-LA).
MURCHA MINHA GERAÇÃO. HÁ UMA INVERSÃO DRAMÁTICA,
UM MOMENTO DE CULPAS, APREENSÕES, INCERTEZAS.
ENCONTRO AS PALAVRAS DO MEU QUERIDO IRMÃO, EMIL,
NO LIVRO DE MEMÓRIAS:"HISTÓRIAS OUVIDAS E VIVIDAS." 
- " É CERTO, NÃO VIVI A VIDA QUE ESPERAVA. MAS VIVI COISAS INESPERADAS, SURPREENDENTES FELIZES E BOAS.
CHEGO A ESTE PONTO COMO GRANDE DEVEDOR. ALGUNS AMIGOS FICARAM ME DEVENDO POUCAS COISAS. EU ESTOU DEVENDO A TODOS. POR TEREM SIDO AMIGOS."


                                                                               
FONTE: Facebook de CHICRE FARHAT
  

                                                     HERÓICA TERNURA
                                   Para queridas irmãs: Sakina, Atica, Dad, Munira, Suade, Emilia e Laila


"É, minha mãe (4 de dezembro),mais um ano de escuridão e silêncio.Lá do fundo do Maripá de Minas (ondeo alcançou à cavalo, em sofridas horas,vindo de Bicas, após desembarque de trem).Vilarejo sem médico, sem remédio, luzelétrica, escola, sem recursos, você resistiu.Com quinze anos, longe dos parentes,
amigos, do Extremo Oriente, tudo arrancado
do frágil coração, na aventura à América...
Afetuosa mulher árabe, dela jamais se ouviu
a pálida faísca do lamento.
Daquele fim de mundo do início do século,
filhos chegavam.
NOVE herdeiros assustavam, mas distribuiu
a última gota de mel.
Em 1940, já em Bicas, o jovem companheiro
de sonhos se foi, sem um gemido.
Alcançava a dor horizonte sombrio,
tamanho desafio, instigante.
Sozinha, viúva, em pequena cidade, com
sua pobreza de dádivas,
não nos deixou dispersar.
Prendeu-nos com grilhões da bondade humana.
Ah! querida, tão longe, como gostaria voltar ao
que era".



FONTE: Facebook de CHICRE FARHAT.

Concluo com as imagens abaixo, da grande e mal correspondida paixão do Sr. CHICRE FARHAT, reiterando que as plameiras que hoje cobrem o nome de sua tão querida ÁSSIMA continuem crescendo e crescendo até que ele fique para sempre visível e à descoberto. Como era de seu desejo. Com carinho concluo. Ao senhor, minhas sinceras homenagens.






terça-feira, 8 de outubro de 2019

NOTA DE FALECIMENTO

         Viemos com muito pesar comunicar o falecimento hoje, 08 de Outubro de 2019, de JOSÉ DOUSSEAUX DE JESUS, o ZEQUINHA. 
       Seu sepultamento será amanhã, às 8h, em SANTOS DUMONT (MG), a cidade onde vivia, assim como praticamente todos os outros descendentes de seu pai JOSÉ DOUSSEAU (tio Zezé) e ANELINA DOUSSEAU.
       ZEQUINHA foi o único filho de tio ZEZÉ que tive o prazer de conhecer, ainda que tendo-o visto uma única  vez, quando eu tinha aproximadamente 7/8 anos, em casa de minha avó MERITA, em BICAS. Como disse minha mãe e sua prima, LYDIA: " Que DEUS o receba com amor, pois foi uma ótima pessoa". Amém.
         Nosso abraço e nossos sentimentos a toda família. 


                                              

sábado, 5 de outubro de 2019

05 de Outubro de 2019.

                             PHARMÁCIA IMPERIAL

Bom dia, queridos leitores! Faz um tempinho, não?

       Em compensação, vim trazer uma lembrança que me é muito  cara, do tempo em que, em função de minhas pesquisas, fiz várias viagens à BANANAL e redondezas: ARAPEÍ, SÃO JOSÉ DO BARREIRO... Sempre seguindo a "rota dos imigrantes" do VILLE DE BUENOS AYRES e do NÍGER, que inclui PIRAÍ, BARRA DO PIRAÍ e todos os municípios limítrofes destes, que em outros tempos formavam um todo um tantão maior.
       Nessas encantadoras e mágicas viagens, tive contato com maravilhas que, com  justiça, fazem dessas cidades um destino turístico merecedor de toda nossa atenção. Principalmente se somos amantes de História. Aquelas visitas:
- à FAZENDA BELA ALIANÇA, entre VARGEM ALEGRE (para onde foram nossa SUZANNA, com apenas 3 aninhos e seus pais, após desembarcarem no RIO DE JANEIRO, vindos da DORDOGNE (ou Périgord) e PIRAÍ. Sua inesquecível proprietária MARIA LUIZA LEÃO e seu dedicado e solícito caseiro ÍRIO. A magia que vinha de cada centímetro daquelas construções e daquelas terras... São memórias que ficam guardadas no fundinho do coração e que poucas palavras podem descrever.
        A FAZENDA DOS COQUEIROS, em BANANAL, maravilhosamente bem conservada e "encharcada" do carinho acolhedor de seus proprietários BETH BRUM, seu esposo (in memoriam) e sua filha TATIANA. Para nós importante como fonte de pesquisa, porque, durante um tempo, no tempo de nossos bisavós e desde antes ainda, foi propriedade do BARÃO CÂNDIDO RIBEIRO BARBOSA, também proprietário da FAZENDA RIALTO, o foco de nosso interesse. Em RIALTO e por RIALTO grandes tragédias e dramas acometeram os imigrantes vindos no NÍGER. Sobre isso PASCALE LAGAUTERIE nos prepara um livro baseado em profunda pesquisa, pelo qual espero ansiosa. Hoje, por lá, só encontrei traços da família CHEMINAND, embora essa, originariamente, tenha vindo para a FAZENDA MONTE CRISTO, em MARIPÁ DE MINAS. Aliás, a FAZENDA MONTE CRISTO é a "cereja do nosso bolo". Nossa história familiar se desenvolveu em muito à partir dela e das histórias que a envolvem.
        Por causa dessas duas fazendas em especial, BELLA ALIANÇA e RIALTO, o VALE DO PARAÍBA e, mais especificamente BANANAL, acabaram se tornando destino certo de muitas e muitas de minhas viagens de pesquisa.
        Mas pensam vocês que só andei por fazendas, museus, cemitérios e cartórios? Não! Não apenas. A pesquisa histórica exige que se converse com os "mais antigos" de cada lugar pesquisado. Seja onde for: nas praças, nos comércios, nas ruas, nas casas...
        E assim fui parar na PHARMÁCIA POPULAR, antiga PHARMÁCIA IMPERIAL. Que lugar! Que lugar! Naqueles anos em que frequentei assiduamente a cidade, entre 2006 e 2010, sempre me encantava cada recanto de BANANAL. Claro que olhava a pequena cidade com "lentes de aumento", digamos, em função de sua importância na história dos imigrantes perigordinos. E a PHARMÁCIA IMPERIAL, assunto da postagem de hoje, não precisava dessas lentes: ela saltava aos olhos, desde o momento que ultrapassássemos sua soleira. O senhor PLÍNIO GRAÇA, seu último proprietário (falecido em 2011), já idoso, nos recebia com prazer e atenção, se percebesse em nós "aquele sinal" de quem reconhece o valor da preservação. E ali, em sua farmácia... ops... não! "pharmácia" (Ph  merecidíssimo!) estávamos em um "museu vivo". Junto a pequena quantidade de medicamentos comercializáveis, o que podíamos ver ali era, provavelmente, o mesmo que viram nossos antepassados franceses em sua breve passagem pela região. Quase 100% intacto!
       Você poderá encontrar, numa rápida pesquisa pela internet, muito material sobre cada um desses lugares. Vale a pena fazê-lo. Colocarei alguns links no final dessa publicação para dar partida à sua curiosidade.
       Mas aqui, no nosso blog, venho trazer MINHAS fotos. Aquelas daquele tempo e que nunca antes havia publicado. Em memória de tudo  que me foi preciosíssimo. De pessoas que me foram preciosíssimas e principalmente, nesse caso, de um lugarzinho mágico  do qual tive  o prazer de respirar o ar: a PHARMÁCIA IMPERIAL! As outras fotos, mais ou menos antigas, foram garimpadas pela internet, duas delas numa publicação  que você pode ver entre os links que recomendo  abaixo, nessa publicação, para todos aqueles que desejam saber mais sobre os lugares citados acima. Vale a pena! Depois só fica faltando visitá-los. Ao vivo e em cores. Ao menos a FAZENDA DOS COQUEIROS tem um trabalho todo especial voltado para o atendimento dos interessados, sejam historiadores, turistas ou amantes da natureza. 
       Para vocês:










http://www.saopauloantiga.com.br/pharmacia-popular/

http://www.institutocidadeviva.org.br/inventarios/sistema/wp-content/uploads/2009/11/13_bela-alianaa.pdf

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-47142005000200010