domingo, 14 de agosto de 2016

VISITANDO "ANARQUISTAS, GRAÇAS A DEUS".

Bom dia a todos!

         Esporadicamente não posso me furtar a comentar um pouco mais demoradamente alguns livros que me tocam profundamente, quanto à questão imigração. Principalmente aquela "onda" tão próxima à de nossos bisavós, no tempo, no espaço e nas vivências, qual seja a dos italianos. 
         Embora sua fama já me tivesse chegado à muito tempo, somente agora, recentemente, pude de fato lê-lo na íntegra. O "ANARQUISTAS, GRAÇAS À DEUS", de ZÉLIA GATTAI.
         Aconselho vivamente a todos que gostam do tema "imigração" que também o façam. Não se arrependerão. Porque o que trago para vocês é o trecho que relata específica e literalmente as questões ligadas aos porques da família GATTAI ter vindo e aos terríveis percalços de seus primeiros momentos após a decisão de fazê-lo. Ficará por sua conta, leitor, ler a delícia que é tudo o mais que não estará aqui transcrito. Boa leitura!



                                           
Capa do livro editado pelo CÍRCULO DO LIVRO. Edição integral lançada em 1979, com licença da RECORD. Foto da capa, por GIOCONDA RIZZO, traz a família GATTAI.



     "Embalado com o interesse da filha caçula pelo passado da família, papai resolveu contar mais uma vez a história de como os Gattai tinham vindo parar no Brasil. Já a havia contado repetidas vezes mas para mim seria a primeira.

                                   A COLÔNIA CECÍLIA

     A viagem da família Gattai começara, em realidade, dois anos antes de embarcarem no CITTÀ DI ROMA, em Gênova. Meu avô tivera a oportunidade de ler um livreto intitulado IL COMUNE IN RIVA AL MARE, escrito por um certo doutor Rossi - que assinava com o pseudônimo de Cárdias - misto de cientista, botânico e músico. No folheto que tanto fascinara meu avô, Cárdias idealizava a fundação de uma Colônia Socialista Experimental, num país da América Latina - não especificava qual - , uma sociedade sem leis, sem religião, sem propriedade privada, onde a família fosse constituída de forma mais humana, assegurando às mulheres os mesmos direitos civis e políticos que aos homens.
     Cárdias ainda ia mais adiante: nas últimas páginas de seu estudo, de seu plano, fazia um apelo às pessoas que estivessem de acordo com suas teorias e quisessem acompanhá-lo a qualquer parte da Terra, por mais distante, desde que pudessem levar à prática todas as experiências e as ideias, contidas no livro, para se apresentarem.
      Por fim, Francisco Arnaldo Gattai encontrava alguém com dinamismo e inteligência, disposto a tornar realidade um sonho, seu e de outros camaradas, também discípulos dos ensinamentos de Bakúnin e Krapótkin, à procura de um "caminho novo para a humanidade faminta, esfarrapada, ensanguentada, talvez esquecida de Deus".
     Buscaria uma oportunidade de encontrar-se com Cárdias. Começava a divisar perspectivas para o futuro de sua família.
     Enquanto Argía, sua mulher, amamentava o filho, leu-lhe o precioso documento. Que pensava ela desses planos? Queria saber sua opinião. Deviam aceitar o convite do doutor Giovanni Rossi? Tinham quatro filhos, um ainda a sugar o peito da mãe.
     
                 DR.GIOVANNI ROSSI OU CÁRDIAS

     Com palavras simples e acessíveis, papai nos explicou quem era o doutor Giovanni Rossi, mais conhecido por Cárdias, o homem que idealizara todo o plano da colônia experimental em terras distantes. Nascera poeta e herdara da família incontestável vocação musical. Mas, deixando de lado poesia e música, inquieto, preocupado com os problemas sociais, preferiu os estudo práticos, formando-se em agronomia, dedicando-se ao jornalismo e aos problemas sociais e filosóficos. Em suas idas a Milão, costumava hospedar-se com um parente, músico, o maestro Rossi, cuja casa era frequentada por músicos de renome, entre eles um certo Carlos Gomes, brasileiro, autor de óperas. Encontraram-se os dois, Giovanni Rossi e Carlos Gomes, na ocasião em que o músico brasileiro se entregava com entusiasmo à partitura de mais uma ópera, LO SCHIAVO, que pretendia tocar para o imperador do Brasil, cuja chegada à Milão estava sendo aguardada.
     

                                                           
Fundadores da COLÔNIA CECÍLIA. GIOVANNI ROSSI à direita. FONTE: JornalOpção.com.br
          

     Carlos Gomes falou à Giovanni Rossi de sua terra, do outro lado do mar, cheia de belezas naturais e de suas riquezas. O músico falava da grandeza de seu país com emoção e saudade.
     Cárdias o escutou fascinado! Essa era a terra que buscava, ideal para sua experiência. Não havia dúvidas. Pês de lado imediatamente o projeto ainda embrionário, de tentar o Uruguai. O Brasil o chamava.
     Entusiasmou-se ainda mais ao saber da próxima chegada de dom Pedro II a Milão. Carlos Gomes, seu protegido, o conhecia bem, e o admirava muito. Fez-lhe os maiores elogios: "um rei sábio, um pai para o nosso povo, amigos dos inventores, dos músicos, dos poetas..."
     Cheio de esperanças, Cárdias resolveu escrever uma carta ao imperador do Brasil. Não tinha nem nunca tiver admiração por imperadores, mas se aquele quisesse se interessar por seu projeto... Na longa carta explicou com detalhes seus planos a dom pedro II, pedindo que lhe permitisse provar a seriedade da experiência e solicitando terras e apoio para a ida dos idealistas para o Brasil.
     Essa carta, levada por ele mesmo, foi entregue, em mãos, ao Conde da Motta Maia, médico do imperador, no hotel onde a comitiva real se hospedava. 
     Algum tempo depois, já no Brasil, dom Pedro leu por acaso o pequeno livro de Cárdias. Interessou-se pelas ideias e pelo arrojo do autor. Mostrou o pequeno tomo ao Conde da Motta Maia que então se recordou do jovem que havia procurado o Imperador no Hotel Milão, levando-lhe uma carta. O pseudônimo era o mesmo. Dom pedro lembrou-se vagamente do fato.
     Impressionado com o apelo das últimas páginas do livro, convocando voluntários para a experiência e dando seu nome completo e endereço, Pedro II não teve dúvidas,mandou que respondessem à sua carta: felicitava-o por seu trabalho e oferecia-lhe a terra solicitada para a colônia experimental.
     Estabeleceu-se, então, uma correspondência entre o jovem idealista e o Imperador. Depois de várias démarches, Cárdias recebeu de dom Pedro II a posse de trezentos alqueires de terras, incultas e desertas, num local entre Palmeira e Santa Bárbara, no Paraná, e, ainda, a promessa de ajuda e apoio para o empreendimento.
     Tudo acertado, a doação das terras já feita, Cárdias botou mãos à obra dando início ao recrutamento dos voluntários, através dos jornais e em reuniões públicas. Frisava bem que aquela era uma aventura somente para idealistas endurecidos na luta, dispostos a realizar uma grande experiência social, sem medir sacrifícios.
   Os candidatos foram surgindo e seu número aumentou rapidamente.
    Entre os primeiros que se apresentaram estava Francisco Arnaldo Gattai, meu avô, que entrara em contacto havia muito com Cárdias. Agora, já nascera o quinto filho do casal, a menina Hiena. Com a mulher, estudara a situação: não seria arriscado partirem para a aventura, carregando cinco crianças?
      Argia Fagnoni Gattai, minha avó, não era mulher de recuar diante de obstáculos. Aos trinta nos de idade, carregada de filhos, não teve medo de enfrentar o desconhecido. Amava o marido, sabia o que representava para ele aquela viagem. Não iria desapontá-lo. Costumava amamentar os filhos até os seus dois anos de idade - esse era o intervalo matemático entre um filho e outro - , criando-os fortes e sadios. Jamais lhe faltara leite; por Hiena não precisavam temer. A mãe lhe garantiria a alimentação, pelo menos durante a travessia marítima.
     Entre os cento e cinquenta - talvez um pouco mais - pioneiros que integravam o grupo, havia gente de várias profissões e classes sociais: médicos, engenheiros, artistas, professores, camponeses e operários - em meio a esses últimos, meu avô. Mas havia também outros que conseguiram se infiltrar, alguns criminosos condenados por diversos delitos.

                            COMEÇO DE VIAGEM

     O grupo de idealistas embarcou no navio CITTÀ DI ROMA em fevereiro de 1890; o regime imperial no Brasil havia sido derrubado a 15 de novembro de 1889. Dom Pedro II fora deposto e desterrado, a República proclamada. Os fundadores da Colônia Socialista Experimental não podiam mais contar com a ajuda e o apoio prometidos pelo imperador. Contariam apenas com seus próprios esforços, com a vontade de vencer, mas nada os faria recuar.
     No porão do CITTÀ DI ROMA, junto às caldeiras, viram-se amontoados os pioneiros que, em breve, estariam integrando uma comunidade de princípios puros: a "Colônia Cecília". Iam cheios de esperanças, suportariam corajosamente as condições infames da viagem.
     Uma luz artificial, fraca, era tudo o que havia para iluminar o porão; nem a mais leve brisa do mar chegava até ali para atenuar o calor sufocante.
     As crianças, inquietas, inconformadas com a escura prisão, tentavam a toda hora, burlando a vigilância dos mais velhos, subir a escada escorregadia e íngreme que as conduziria ao sol.
     No segundo dia de viagem já não havia onde pisar. Poças de vômito espalhavam-se por todo lado. O navio jogava demais e a maioria dos passageiros enjoava. Argia Gattai estava entre os que mais sofriam. Não conseguia alimentar-se, vomitava o que já não trazia no estômago. Com o correr dos dias a situação dos Gattai foi se agravando grudada aos peitos da mãe  ora num, ora noutro -, Hiena só os largava para reclamar, chorando desesperadamente. Onde estariam aquelas tetas fartas, transbordantes? Elas iam diminuindo, murchando, cada vez menor a quantidade de leite para saciar sua fome... Ninguém dormia com o pranto dolorosa da menina mas ninguém reclamava. 
     Um médico do grupo chegou-se, aproximou-se e sem examinar a criança diagnosticou: fome.
     E se conseguissem um pouco de leite em cima? O médico desaconselhou: o leite de bordo não era bom, nas condições de fraqueza em que a criança se encontrava poderia provocar-lhe diarreia. A única providência a tomar, urgentemente, era conseguir com o comandante do navio permissão para remover mãe e filha para cima, onde pudessem respirar ar puro. Talvez, quem sabe, seu leite voltasse?
     Estirada numa espreguiçadeira, na popa do navio, com a criança grudada ao peito - perninhas e braços finos, olheiras fundas -, a mulher passava o dia. Havia quanto tempo viajavam? Quando chegariam? Deviam ter decorrido muitos dias desde a partida de Gênova. Inda bem que as quatro crianças continuavam com saúde. Guerrando, o mais velho dos filhos, beirando os dez anos, fora encarregado de cuidar dos menores, o pai ocupado com a mulher e a filha doente.
     À noite, a mãe e a menina voltavam para a fornalha e o choro recomeçava. Hiena já não mamava com tanta avidez. P leite quase secara, sugava em vão.
     Tio Guerrando jamais se esquecera dos tormentos da terrível viagem; quando era ele a narrar a odisseia dos pais, o fazia com tanto sentimento que, sem me dar conta, comparei aquele porão quente e escuro ao Inferno de Dante.

              SERVIÇO DE IMIGRAÇÃO E SAÚDE

     No porto de Santos formou-se a maior confusão na hora do desembarque. Homens para um lado, mulheres para o outro. Em salas separadas os imigrantes foram despidos, as roupas do corpo e as que traziam nas trouxas levadas para a costumeira desinfecção. Ali permaneceram durante horas a fio, nus, a espera de que lhes devolvessem os pertences, que os liberassem.
     Ninguém reclamava, nem havia a quem reclamar. O jeito era esperar com paciência e resignação.
     Por fim, depois de infinita demora, roupas e pertences foram devolvidos, devidamente carimbados pelo posto. Apertados em seus trajes encolhidos pelo banho de desinfecção, cheirando a remédio, amarfanhados, os imigrantes, conduzidos em fila, passaram pelo departamento médico, numa última vistoria antes de serem liberados.
     Dali mesmo, foram encaminhados e embarcados novamente num pequeno navio que os conduziria ao Paraná. (Tio Guerrando não estava muito certo do novo porto de desembarque, mas achava que era o de Paranaguá)
     O estado da menina não melhorara, o leite materno acabou inteiramente, deram-lhe então leite de vaca. Como prevenira o médico, manifestou-se em seguida violenta diarreia acompanhada de vômitos.
     Os pioneiros partiram rumo às terras que os esperavam, a família Gattai permaneceu na cidade. Companheiros compadecidos ofereceram-se para levar as quatro crianças; facilitaria a vida dos pais, às voltas com a menina doente.
     - Ficaremos juntos. Não suportaríamos a ausência de nossos filhos, morreríamos de preocupação... - explicou nono Gattai, agradecendo o oferecimento.
     E lá ficaram eles, naquele porto estranho, buscando por todos os meios salvar a vida da filha.

                   BANDEIRA VERMELHA E PRETA

     Num carroção de quatro rodas, com suas trouxas de roupas e alguns pertences, passou a família Gattai por Santa Bárbara: marido, mulher e quatro filhos. 
     Ao verem passar a carroça, algumas crianças gritaram chamando pelas mães: "Venham ver que estão chegando mais ciganos!" Havia pouco mais de um mês passara por lá grande leva de homens, nas mesmas condições que esses. Ciganos, certamente, pensaram os moradores do pequeno vilarejo, trancando as portas das modestas casas cobertas de folhas de zinco, no medo de serem roubados.
     Ao alto de uma colina, por entre os pinheirais, divisava-se, hastada no alto de uma palmeira, enorme bandeira vermelha e preta. Era a bandeira da Colônia Cecília, saudando a chegada dos novos pioneiros.
     Ao divisar a bandeira da Colônia, nono Gattai olhou mais abaixo e exclamou: "Lá estão eles!" Ali estava o acampamento: um grande barracão erguido junto a um córrego, pequenas barracas em construção, homens movimentando-se para cima e para baixo, um pedaço de terra já limpa para o cultivo ao lado de um pequeno bosque.
     Dona Argia voltou a cabeça em direção ao dedo estirado do marido. Seus olhos distantes não divisaram nada. Sua alegria, sua esperança, seu entusiasmo ainda permaneciam lá longe, enterrados ao lado do corpinho da filha. Durante toda a viagem não dera uma única palavra, nem para amaldiçoar, nem para acusar. Não derramou uma única lágrima, completamente apática. O marido, disfarçando a tristeza pela morte da filha, procurava distrair a mulher chamando-lhe a atenção para mil e uma coisas durante a longa e dura viagem pela estrada. Sem obter resultados.
     Avistando a carroça da família Gattai, os homens do acampamento partiram ao seu encontro. Os Gattai foram alojados provisoriamente no barracão construído pela primeira leva. À chegada todos trabalharam para construir o galpão onde se abrigarem. Nos dias que se seguiram cada família tratou de construir sua própria morada. O barracão ficara para depósito e emergência como aquela.
     As quatro crianças, ao se verem livres da incômoda carroça, correram em disparada para o regato de águas cristalinas. Ninguém as impediu de se banharem de roupa e tudo. estavam necessitadas de ar puro, de água e, sobretudo, de liberdade.

                                                 
ANGELINA DA COL e ERNESTO GATTAI, imigrantes italianos, pais de ZÉLIA GATTAI. Vieram crianças da Itália.
     
                            FIM DA COLÔNIA CECÍLIA

     -E foi assim que a família GATTAI chegou ao Brasil. - Com essa frase papai dava por encerrada sua história.
     Estávamos, no entanto, tão impressionados com o relato, que desejávamos ouvir mais. Papai, percebendo nossa emoção, buscou desanuviar o ambiente:
     - Vocês estão vendo? Sabiam que eram tão importantes? Pois, para que vocês estivessem aqui hoje, foi preciso a intervenção do filósofo Giovanni Rossi, do maestro Carlos Gomes e de dom Pedro II, imperador do Brasil. Que tal? - riu do nosso espanto.
     Mas, eu não estava ainda satisfeita, queria saber mais. O que havia acontecido á Colônia Cecília?
     - Manteve-se ainda durante alguns anos, com grandes esforços e muito trabalho, mas resultou em nada, não pode manter-se.
     Era difícil a papai explicar detalhes de fatos que ele mesmo ignorava. Titio Guerrando, que vivera esses episódios e ainda se lembrava de muita coisa, também pouco sabia sobre os motivos que levaram ao fracasso da experiência. de positivo mesmo, sabia que muita gente desistira ao aparecerem as primeiras dificuldades. Outros idealistas, que foram chegando no correr do tempo para se incorporar à Colônia, tampouco resistiram ás péssimas condições nela reinantes. Alguns mais teimosos tiveram que arranjar emprego fora das terras, nas construções de estradas de ferro, para não morrer de fome. Mas tudo culminou com a intimação das autoridades republicanas que, não estando de acordo com a doação feita pelo imperador deposto, exigiam dos colonos que, ou comprassem as terras que ocupavam e pagassem os impostos atrasados ou as abandonassem. Havia ainda  aversão anticlerical de tio Gerrando: ele contava que, bem próximo à Colônia, fora construída uma igreja católica com o objetivo exclusivo de hostilizar e boicotar os anarquistas, e que, já na época da colheita, o padre vizinho soltou suas vacas, que rapidamente destruíram todas as plantações, liquidando assim as últimas esperanças dos remanescentes da Colônia Cecília.
     Os Gattai lá permaneceram dois anos, mais ou menos. O último a abandonar o barco, tempos depois, foi o comandante Cárdias, ao ver-se impossibilitado de prosseguir sozinho na sua experiência.
     Aprendi muita coisa sobre a Colônia Cecília, mais com tio Guerrando que com papai. Tio Guerrando, menino crescido durante a aventura, lembrava-se de detalhes vividos pela família.
     Foi no livro do escritor Afonso Schmidt, COLÔNIA CECÍLIA, publicado em 1942 em São Paulo, que encontrei algumas respostas às minhas indagações, inteirei-me da extensão da aventura anarquista. A família Gattai é citada entre os sonhadores que acompanharam o doutor Giovanni Rossi ao Brasil, no livro de Schmidt: "Na casa dos Gattai ardia fogo, uma fumaça azul saia alegremente pela única janela".


                                                
JOSEFINA e EUGÊNIO DaCOL, avós maternos de ZÉLIA GATTAI, também imigrantes italianos.

                              PARECIDA MAS DIFERENTE

     Papai terminara sua narrativa. Nos voltamos em seguida para nono Gênio, queríamos que nos contasse também como ele e sua família haviam chegado ao Brasil.
     -Hoje não- respondeu nono-, já é muito tarde, passei de minha hora de dormir. Amanhã eu conto. Buona notte.
     Arrisquei ainda uma pergunta antes que ele saísse da sala:
     - O senhor também era anarquista, nono? 
     - Não, não era anarquista nem monarquista. Nossa família não entendia nada da política. Éramos gente de igreja, todos católicos. Nossa história é muito parecida com a dos Gattai, mas completamente diferente...
     Caímos na gargalhada, papai foi quem mais riu. Como podia ser isso: parecida e diferente?
     Um pouco ressabiado com a reação causada por sua afirmativa, nono resolveu roubar mais uns minutos de seu precioso sono e justificou-se em poucas palavras:
     -Nós também viajamos com cinco filhos menores e atravessamos o oceano no porão de um navio. Nós também perdemos uma menina no Brasil, a mais nova dos cinco. Era Carolina, tinha pouco mais de dois anos quando morreu. - Fez uma pausa, continuou, de cabeça baixa: - Só que a nossa morreu por falta de recursos...
     Papai esboçou um leve sorriso ao ouvir a afirmação do sogro, para quem era muito duro admitir e ainda mais difícil pronunciar a frase: "morreu de fome!".
     Soubemos tudo sobre a viagem da família DaCol no dia seguinte, quando nono cumpriu a promessa e nos contou a história.
     Vovô viera da Itália com toda a família, contratado como colono para colher café numa fazenda em Cândido Mota, em São Paulo. Embarcaram em G^nova com destino a Santos, por volta de 1894: Eugênio DaCol, o pai; Josefina Pierobon Dalla Costa DaCol, a mãe; Ângelo (Angelim), dez anos; Marguerita, oito anos; Luís (Gígio), seis; Ângela (Angelina), quatro anos, e Carolina, dois anos.
     Dona Pina passou a viagem toda rezando, pedindo a Deus que permitisse chegarem com vida em terra. Tinha verdadeiro pavor de que um dos seus pudesse morrer em alto-mar e fosse atirado aos peixes.Carolina ressentiu-se muito da viagem, estranhou a alimentação pesada do navio, adoeceu, mas desembarcaram todos vivos no porto de Santos.
     A família fora contratada por intermédio de compatriotas do Cadore, chegados antes ao Brasil. Diziam viver satisfeitos aqui e entusiasmavam os de lá através de cartas tentadoras: "Venham! O Brasil é a terra do futuro, a terra da "cucagna"... pagam  bom dinheiro aos colonos, facilitam a viagem..."
     Com dos Da Col, no mesmo navio, viajaram outras famílias da região, todos na mesma esperança de vida melhor nesse país promissor. Viajaram já contratados, a subsistência garantida.
     Em Santos, eram aguardados por gente da fazenda, para a qual foram transportados, comprimidos como gado num vagão de carga.
     Ao chegar à fazenda, Eugênio Da Col deu-se conta, em seguida, de que não existia ali aquela "cucagna", aquela fartura tão propalada. Tudo que ele idealizara não passara de fantasia;as informações recebidas não correspondiam à realidade: o que havia, isto sim, era trabalho árduo e estafante, começando antes do nascer do sol; homens e crianças cumpriam o mesmo horário de serviço. Colhiam café debaixo de sol ardente, os três filhos mais velhos os acompanhando, sob a vigilância de um capataz odioso. Vivendo em condições precárias, ganhavam o suficiente para não morrer de fome.
     A escravidão já fora abolida no Brasil, havia tempos, mas nas fazendas de café seu ranço perdurava.
     Notificados, certa vez, de que deviam reunir-se, à hora do almoço, para não perder tempo de trabalho, junto à uma frondosa árvore, ao chegar ao local marcado para o encontro os colonos se depararam com um quadro deprimente: um trabalhador negro amarrado à árvore. À princípio Eugênio Da Col não entendeu nada do que estava acontecendo nem do que ia acontecer, até divisar  o capataz que vinha se chegando, chicote na mão. Seria possível, uma coisa daquelas? Tinham sido convocados, então, para assistir ao espancamento do homem? Não houve explicações. Para que? Estava claro: os novatos deviam aprender como se comportar, quem não andasse na linha, não obedecesse cegamente ao capataz, receberia a mesma recompensa que o negro ia receber. Um exemplo para não ser esquecido.
     O negro amarrado, suando, esperava a punição que não devia tardar; todos o fitavam, calados.
     De repente, o capataz levantou o braço, a larga tira de couro no ar, pronta para o castigo. Então era aquilo mesmo? Revoltado, cego de indignação, o jovem colono Eugênio da Col não resistiu: não seria ele quem presenciaria impassível ato tão covarde e selvagem. Impossível conter-se!
     Com um rápido salto, atirou-se sobre o carrasco, arrebatando-lhe o látego das mãos. Apanhado de surpresa, diante da ousadia do italiano, perplexo, o capataz acovardou-se. O chicote, sua arma, sua defesa a garantir-lhe a valentia, estava em poder do "carcamano"; valeria a pena reagir? Revoltado, fora de si, esbravejando contra o capataz em seu dialeto dos Montes Dolomitas, o rebelde pedia aos companheiros que se unissem para defender o negro. Todos o miravam calados. Será que não compreendiam suas palavras, seus gestos? Certamente sim, mas ninguém se atrevia a tomar uma atitude frontal de revolta. Católico convicto, ele fazia o que lhe ditava o coração, o que lhe aconselhavam os princípios cristãos...
     De repente, como num passe de mágica, o negro viu-se livre das cordas que o prendiam à árvore. O capataz apavorou-se. Quem teria desatado os nós? Quem teria? O topetudo não fora, estava ali em sua frente, gesticulando, gritando frases incompreensíveis, ameaçador, de chicote em punho... O melhor era desaparecer o quanto antes, rapidamente: "esses brutos poderiam reagir contra ele. A prudência mandava não facilitar".
     Nessa mesma tarde, a família Da Col foi posta na estrada, porteira trancada para "esses rebeldes imundos". estavam despedidos. Nem pagaram o que lhes deviam. "Precisavam ressarcir-se dos custos do transporte de Santos até a fazenda..." E fim...
     Pela estrada deserta e infinita, seguiu a família, levando as trouxas de roupas e alguns pertences que puderam carregar, além da honradez, da coragem e da fé em Deus.
     Tinham endereço de conterrâneos na capital de São Paulo, onde chegaram depois de arrastar-se numa longa e triste caminhada, passando fome, subsistindo devido à ajuda de corações generosos. Carolina, debilitada desde a viagem de navio, precisava ser carregada o tempo todo, ora no colo de um, ora no de outro. Seu estômago delicado não suportava o angu de farinha de mandioca com água, alimento básico - muitas vezes único - que os mantinha em pé.
     - Carolina morreu logo que chegamos à capital. Deus nos ajudou porque nona Pina jamais se conformaria em enterrar seu anjinho de olhos azuis à beira de uma estrada deserta - concluiu nono Gênio; chorava ao recordar-se.
     Os Da Col passaram a a viver no Brás, onde já moravam velhos amigos cadorinos, operários, ex-colonos. Um deles, vindo ao Brasil em busca de fortuna, como os outros, a encontrara: Natal Boni, dono de uma serraria no Belém. Deu emprego ao conterrâneo e amigo de infância; passou a ser patrão do bom operário Eugênio, excelente carpinteiro. A amizade de infância ficou para trás. Patrão rico esquece o passado.
     Essa foi a história que nono Gênio nos contou, de sua família. Parecida com a da família Gattai, mas completamente diferente.


                                       
O casal Da Col Gattai com seus filhos, entre os quais, Zélia. 
     
       
     E então é isso, leitores queridos. Como bem disse "nono Gênio", nossa história é muito parecida com a deles. Mas completamente diferente. Ou não é?
     
      
                                         
                        
     
     
     

quarta-feira, 6 de julho de 2016

MONTE CRISTO

Bom dia!

     Tendo essa página na minha frente, hesitei muito antes de intitulá-la. Parecia muito pouco apenas o nome da "nossa" fazenda. Porque, para mim, ela é muito mais do que apenas "uma fazenda". Para mim, ela é... arquetípica! Principalmente quando dela só tínhamos a imagem daquela escada que não alcança lugar algum. A mesmo que ilustra a capa de nosso livro. 
     Arquetípica porque, penso eu, tudo que se relaciona à ela é cercado de mistérios que, ainda que o sendo, tocam sensibilidades, memórias do sangue, histórias familiares e coletivas (inclusive  para o povo que ainda vive nos arredores dela...) carregadas de energia. 
     Cada um de nós, descendentes franceses que tivemos a oportunidade de um dia pisar aquele pedaço de terra perdido num quase nada, compartilhamos essa sensação de grande, enorme atração. 
     Em épocas diferentes seus escombros foram fotografados por alguns de nós, ainda enquanto se desmantelava pouco a pouco. Sucessivos proprietários que, com certeza, não conhecem sua importância. A importância de preservar QUALQUER que fosse o pequeno vestígio que tivesse sobrado. Como nossa escada. A escada. Não uma escada qualquer.
     Anos e anos de intensa procura e, pouco a pouco, graças à boa vontade e disponibilidade de alguns, imagens desgastadas, quando não indistintas, mas sempre preciosas, nos foram chegando, com muitíssimo esforço de pesquisa.
     Mas isso que você vê hoje, nem eu mesma pensava um dia ainda encontrar. Chegou-me através da partilha gentil de LEONARDO (ALIBERT) MEIRELLES, ele próprio ainda desconhecedor do lugar real. Feito de escombros e pó. A MONTE CRISTO que ele conhece é só "causos ouvidos". Mas quem sabe haveremos de corrigir isso? Seria uma verdadeira "viagem ao centro de nossa história". Eu, como boa exagerada que sou, acho que todos os descendentes perigordinos deveriam fazer dela local de peregrinação. Uma Meca à qual se dirigir ao menos uma vez na vida. Menos, Marly? Então tá. Ao menos todos os descendentes amantes de sua própria história. Ou não concordam?
     Além de nós, sei que todos os moradores atuais ou antigos da região, historiadores inclusive, irão se deleitar ENORMEMENTE com essa antiga fotografia, devidamente restaurada em alguns pequenos detalhes por AMARILDO MAYRINK, a quem também agradeço a boa vontade de sempre.
     Por isso, assim como ela de graça me veio, de graça compartilho. Saboreie os detalhes. Examine. Sinta. E...
     BOA VIAGEM!


                           

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A ROÇA FRANCESA DE NOSSOS BISAVÓS...

Bom dia!

     Recebi há alguns dias, por e-mail, um arquivo em power point apaixonante, chamado "LA CAMPAGNE D'AUTREFOIS". Ele me falava, somente por imagens, sobre como era a vida no interior francês até algum tempo atrás. 
     Então selecionei, dentre todas as imagens, aquelas que mais definem o que foi o dia-a-dia de nossos bisavós nas "roças" francesas, antes de sua vinda para o Brasil. Conforme pude constatar em minhas estadias no PÉRIGORD, que ainda conserva vívida a memória desses tempos, os hábitos do final do século XIX se conservaram por décadas e décadas. Alguns persistem até mesmo em nossos dias.
     Vamos viajar comigo no tempo, um pouquinho?


                                                











terça-feira, 7 de junho de 2016

100 ANOS DO JORNAL "O MUNICÍPIO".


                                                                               


Bom dia!

     Devidamente noticiado, esperado e comemorado foram os 100 anos da publicação mais importante e mais antiga de nossa região de Minas Gerais. 
     Para nós, pesquisadores, de importância crucial. Ainda que não tenha por vocação aprofundar temas, cumpre muito bem, até hoje, sua tarefa de informar sobre diferentes esferas de interesse. 
     Outros, melhor que eu souberam louvar esse trabalho tão digno. São contribuintes ativos e maravilhosos desse Jornal. Pessoas que eu, particularmente, admiro e acompanho. São eles CHICRE FARHAT e JOSÉ LUÍS MACHADO RODRIGUES, o LUJA. Ambos com vários livros publicados. Essa é a dica que aproveito para deixar para você que me visita aqui: leia- os. 
    
                              



Muito obrigada, muitíssimo obrigada a todos os editores que, suscedendo-se no idealismo e na consciência cívica, trouxeram-nos até os dias de hoje nosso querido e sempre tão aguardado "O MUNICÍPIO", trabalho tão fundamental para cada um de nós.


                                    
Nesse primeiro recorte, a comemoração antegozada por CHICRE.













domingo, 22 de maio de 2016

FAZENDA DA SERRA











Alô, pessoal!

      Até onde temos conhecimento, não há nenhuma relação da FAZENDA DA SERRA. Entretanto, como essa fazenda tem sido de grande importância na história de MARIPÁ, achei que alguns de vocês achariam interessante o artigo a seguir, originalmente publicado no perfil de MAURÍCIO EFÍSIO MEDINA, atual proprietário. Conheçam a história dessa fazenda, através da escrita sempre inspirada do profundo conhecedor da região que é nosso já aqui apresentado outras vezes JOSÉ LUIZ MACHADO RODRIGUES, o LUJA.


Situada no município de Maripá de Minas (MG), no sopé da serra de Rochedo, pode ser considerada a base da família Ferreira da Fonseca aqui estudada. Daí decorre a conveniência de se viajar um pouco pela sua história dessa fazenda, que tem início em 1866. De início é bom lembrar que documentos encontrados na sede da fazenda da Serra e em algumas outras fontes consultadas contam que em 15 de maio de 1866, Antonio Ferreira Martins, adquirindo de Francisco Ferreira da Fonseca e sua mulher Carlotta Marcília de Jesus (seus tios) se estabeleceu como fazendeiro. Não demorou muito e, por outras compras e heranças, formou nas vastas matas que circundavam a Serra de Rochedo, a sua fazenda da Serra que chegou a possuir mais
de cem alqueires de terras, culturas diversas, pastos valados e cercados, matas virgens, cafezais, engenho de café, engenho de cana, alambique, moinho, monjolo, telefone e uma boa casa sede em estilo colonial, confortável, assoalhada, forrada e envidraçada e que ainda hoje permanece bem conservada.
Interessante observar que o Guia da Região da Mata, 1º Censo Cultural de Minas Gerais de 1895 não menciona esta fazenda. Informa apenas que em meados do século XIX nas paragens onde está hoje Maripá de Minas já podiam contar as fazendas
Córrego do Meio, Bonsucesso, Bom Destino, Contendas, Forquilhas e Grota, entre as várias que se dedicavam ao cultivo do café e dos cereais. O que faz supor que o status de grande fazenda a Serra tenha adquirido após algumas anexações de novas terras da vizinhança.
Sobre algumas destas anexações nos arquivos da própria fazenda foram localizados documentos comprobatórios das transações. Em 06.10.1873 Augusto Cezar Pereira vendeu a Antonio Ferreira Martins uma casa que possuía na fazenda dos Moinhos. Em 16.01.1895 Antonio recebeu em hipoteca a fazenda dos Moinhos com 40 alqueires, localizada nas proximidades da fazenda Bonsucesso, que pertencia a José Joaquim de Almeida. Dita fazenda confrontava com as terras de Antonio Ferreira Martins, Domiciano Monteiro de Rezende3, Bento José da Silva, Justino de tal, Joaquim Clemente de Campos, José Pinto Soares e João Celestino de Almeida. No ano seguinte, no dia 03.05.1896, Pedro Fernandes da Costa vendeu parte de um paiol que possuía na fazenda dos Moinhos. Em 06.09.1896, adquiriu de José P. de Almeida uma casa e cafezal no sítio do Carazal4. E em 13.01.1908 foi a vez de João Bento Ferreira e Esmeraldina Rodrigues de Sá venderem uma casa e demais benfeitorias que possuíam para a fazenda da Serra. Possivelmente outras aquisições ocorreram e a fazenda da Serra cresceu e se desenvolveu. Tornou-se uma das primeiras de Maripá a possuir telefone, rádio, engenho de serra e alambique movido a vapor. Uma das maiores produtoras de café, arroz,
açúcar, aguardente, farinha de mandioca e fubá. Seus currais estiveram sempre entre os melhores. Ali a água encanada, a luz elétrica e a escola pública chegaram mais cedo.
Em mapa com traçado de suas terras, ao que parece datado de 1882, constam como sendo seus vizinhos, Ritta Jacintha da Conceição, Antonio Ferreira da Fonseca João Ferreira da Fonseca, Henriques Cezar de Souza, Joaquina Clara de Jesus e a fazenda Bonsucesso, de propriedade do comendador Domiciano Monteiro de Rezende. Vale ressaltar que a fazenda Bonsucesso, pelas ligações familiares envolvidas, pela sua vizinhança e porque parte de suas terras acabaram incorporadas à fazenda da Serra, conforme documentos dos arquivos de Antonio Ferreira Martins, tem também grande relevância no estudo sobre a família Ferreira da Fonseca. Escritura de 24.08.1889, encontrada nos arquivos da fazenda da Serra informa que Anselmo José Machado8 casado com Maria Thereza de Jesus vendeu cinco alqueires de terra na fazenda Bonsucesso para Francisco Augusto Duarte. E na primeira escritura de compra e venda lavrada em Maripá, em 13.09.1890, consta que a Bonsucesso confrontava com herdeiros de Anselmo J. Machado, com Joaquina Clara de Jesus e outros.
No jornal O Guarará de 03 de janeiro de 1904 estão os 12 maiores fazendeiros de Maripá que mais contribuíram com imposto no município. Nessa relação estão os nomes de: Amélia Maria de Vargas; Antonio Bento Fernandes, proprietário da fazenda da Cachoeirinha; Antonio Ferreira Martins, fazenda da Serra; Avelino Ferreira da Fonseca, fazenda da Boa Vista da Serra; comendador Domiciano Monteiro de Rezende, fazenda Bonsucesso, talvez o pioneiro da família Monteiro de Rezende em Maripá; Domingos Henrique de Gusmão; Firmino François Alibert, comendador que em 1881 fazia parte do conselho da intendência municipal e em 1894 foi escolhido vereador especial por Maripá, cargo que não assumiu; Giaccomo Trezza avô do ex-prefeito Walter Trezza; José Antonio Trezza; José Antonio de Oliveira e Silva; Maria Heleodora Martins; e, Ricardo José Coelho, proprietário da fazenda Bom Destino. Na relação publicada em 1905 com o nome dos 15 maiores fazendeiros de todo o município do Guarará o capitão Antonio Ferreira Martins aparece como o terceiro maior e o comendador Domiciano Monteiro de Rezende e Avelino Ferreira da Fonseca são, respectivamente, o 11º e o 12º colocados.
A partir de 1909 a fazenda da Serra passou a pertencer ao capitão Quintino da Costa Mattos, neto de Antonio, conforme carta de adjudicação no inventário de Luiza Maria da Conceição.11 Sucederam ao capitão Quintino os seus filhos e, posteriormente, o seu neto Carlos de Mattos Carvalho que a transferiu para pessoas estranhas à família.

     Maurício nos apresenta, também, um pouquinho do panorama atual da dita fazenda:

FAZENDA DA SERRA, 150 ANOS DE HISTÓRIA.
Neste mês de maio, uma de nossas unidades produção, nossa sede histórica, a fazenda da Serra, estará completando 150 anos de existência, apresentando uma vida produtiva ininterrupta, começando com o café em 1866, chegando a produzir sacas de milho e arroz além de ter fabricado umas das cachaças mais famosas da região de Maripá de Minas, a cachaça 'Serrana'. Hoje a produção da fazenda está voltada 100% para produção de leite, produzindo genética de ponta para o mercado.
A 3M Pecuária e toda sua equipe tem o orgulho de fazer parte desta bela história.

Nossos parabéns a MAURÍCIO e família, por terem sempre pretendido reconhecer e valorizar a importância histórica da propriedade que adquiriram. Carecemos disso. Que o exemplo se propague. Boa sorte!

sexta-feira, 20 de maio de 2016

GANHADORA DO SORTEIO

     Boa noite, pessoal!
     Conforme combinado, foi sorteado no dia de hoje, 20/05/2016, um exemplar autografado do nosso livro. Para esse sorteio, foram consideradas as manifestações aqui no blog, no meu e-mail e no Facebook. 
      A ganhadora é do Rio de Janeiro e chama-se ROSY CRISTINA MACHADO. 
      Muito obrigada, Rosy, por curtir nossas publicações. Espero que curta também o livro. A "FAMÍLIA DOUSSEAU" agradece sua participação.
      Abraços!

sexta-feira, 13 de maio de 2016

100.000 VISITAS!!!

    
                                                  




      Esse é ou não é um marco mais do que especial? Sendo assim, para comemorarmos juntos, sortearei, no dia 20/05, um exemplar do meu livro "Dousseau: Enter - Franceses no Império do Café". Sem nenhum custo para você, nem mesmo o de envio. 

                                                    


      Para concorrer basta que você envie seu nome e endereço  completo (não esquecer o CEP!) para meu e-mail : mmmayrink@hotmail. com.
      O resultado será divulgado aqui mesmo, nessa página.
      Boa sorte e mais uma vez muito obrigada por sua preciosa companhia que tanto me prestigia.
      

quinta-feira, 28 de abril de 2016

PRIMÓRDIOS DA ESTRADA DE FERRO UNIÃO MINEIRA - DOCUMENTO RARO!

     








Bom dia, leitores queridos!


     Hoje venho dividir uma pérola rara com vocês. Tendo como fonte inicial documentos digitalizados pelo MUSEU HISTÓRICO DE JUIZ DE FORA para o acervo da CÂMARA DE MAR DE ESPANHA. Aproveito para encaminhar meu agradecimentos de sempre, grandes e sinceros, a FRANCISCO OLIVEIRA.
     Esse documento em particular interessa sobremaneira a todos os amantes de história, mais especificamente da história da ZONA DA MATA MINEIRA, da ferrovia e do ciclo co café. Resumindo: interessa exatamente a nós que aqui estamos. Então vamos lá. Na íntegra e no original, para vocês, esse documento de raro valor.


                                                 

                                                    


                                                
                                                      




                                                       







                                                            

















                            Então é isso. Espero que tenham tido todos bom proveito. E o mesmo "frisson" que sinto ao ver detalhados, como se fosse hoje, os primeiros passos que abriram caminho para a existência mesmo de nossa BICAS e de nós próprios. Relatadas ali, sem a noção ainda clara do envolvimento que pode ter uma simples decisão de "onde colocar uma estação" para os futuros capítulos de uma história que ainda se faz. Fabuloso! Não acha?

terça-feira, 19 de abril de 2016

PATRIMÔNIO CULTURAL - NOVO PONTO DE VISTA

Bom dia a todos.

      Recentemente, tive o prazer de conhecer o livro de MARIA DO CARMO SOBREIRA, chamado IGREJAS, CAPELAS E COMUNIDADES DO MUNICÍPIO DE SÃO JOÃO NEPOMUCENO. 
      Além da enorme alegria de ver ali descrita a capelinha de BOM JESUS DOS MACHADOS, pude conhecer todas as outras dos arredores, levantadas com a mesma fé, trabalho, suor e empenho da população de cada lugarejo daqueles arredores. 
      Mas sobre os livros de MARIA DO CARMO já falamos em outro post. Neste, venho transcrever para vocês um resumo do ponto de vista de MARCUS TADEU DANIEL RIBEIRO sobre a espinhosa questão referente à conservação do nosso patrimônio cultural.
      Embora o tema seja recorrente para quem estuda a História em qualquer um de seus infinitos aspectos, confesso que ele, na minha opinião, "quebrou um paradigma". Me fez ver com muito mais clareza e tolerância o desgostoso cenário com o qual convivemos nesse campo. 
      Pense a respeito, após essa leitura. É um excelente exercício.
      

       "É costume da maior parte da população esperar que o Estado faça a preservação de seu patrimônio cultural. Mas quase não se tem ao certo o que vem a ser, de fato, este patrimônio cultural. Imagina-se que já se sabe o que vem a ser esse patrimônio cultural e é só uma questão de o Estado fazer a sua parte.
       Não é bem assim. O entendimento sobre o que é o patrimônio cultural brasileiro é um esforço permanente, uma redescoberta cotidiana e não é rígido, não está contido em nenhuma lei, manual estatístico ou ementário oficial. O que ontem não era para ser preservado, talvez hoje seja. Assim, enquanto se preservam algumas coisas, outras ficam entregues à própria sorte. Há várias razões para se preservar um bem cultural, como também há muitas outras para se não o preservar. Não é apenas pela incúria do poder público que se deixam de proteger edifícios históricos e artísticos.
       É que a memória não é nem pode ser um ato acrítico de salvaguarda de tudo que caia em seu domínio. A memória é seletiva: preservam-se coisas e se esquecem de outras. A memória só faz sentido se for assim. Na seleção das coisas a serem protegidas pela sociedade em parceria com o poder público, existe o juízo de valor, quer dizer, elegem-se alguns bens culturais para serem preservados e outros não.
       Mas é preciso conhecerem-se esses bens culturais. É necessário olhar-se para o nosso universo de coisas que testemunham o trajeto histórico do povo brasileiro, em seus vários matizes culturais e especificidades históricas. Porque o valor cultural do patrimônio histórico é uma construção e não um dado absoluto, permanente e inerente ao objeto apenas. Sendo valor, é sempre relativizado  ante o universo de referências históricas, morais e filosóficas que a sociedade possui.
       É um erro, por exemplo, imaginar-se que a obra monumental do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, trabalho primoroso em ouro e referência do Barroco internacional, ou que a obra expressiva de Aleijadinho tenham sido sempre reconhecidos pela historiografia artística. Gonzaga Duque, o grande crítico de arte do século XIX, em sua obra célebre "Arte Brasileira", editada no início do século XX, refere-se ao Barroco como uma "brutalidade inventada pela inquisição". Aleijadinho, por sua vez, só seria valorizado e adquiriria essa unanimidade de que goza hoje em dia, a partir de estudos realizados na década de 1940 e seguintes no Brasil e no exterior.
       O valor do objeto cultural, por mais que pareça estranho, não é inerente a ele, mas ao olhar de quem vê esse bem. Rubem Alves já apontou para essa questão em seu texto "A Complicada Arte de Ver", onde, na esteira do pensamento de William Blake, lembra-nos que " a árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Respaldando-se ainda em Alberto Caieiro, heterônimo de Fernando Pessoa, lembra-se que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir as janelas para ver os campos e os rios.
       Assim, hoje em dia, já não é mais necessário se explicar muito para se reconhecer o valor cultural de uma igreja barroca. Todos vêem nela este valor que a historiografia celebrizou. Este reconhecimento é quase espontâneo. Mas houve necessidade, no passado, de se questionar a visão oitocentista que, por demais atrelada à herança neoclássica incutida no Brasil desde fins do século XVIII, se difundira nos anos oitocentos quase como um dogma, exaltando apenas o clássico e condenando o Barroco. Quantas obras barrocas não se perderem por causa disso?
        No Rio de Janeiro, só para se mencionar alguns exemplos mias célebres, a construção da Avenida Presidente Vargas poria no chão três igrejas, entre as quais a importantíssima São Pedro dos Clérigos, com sua planta em oito, sua talha rococó, enquanto que a igreja da Candelária, com sua decoração de vocabulário neoclássico, impunha-se sobre os engenheiros da grande via, que contornaram obsequiosamente, enquanto destruíam a igreja rococó. Rodrigo Mello Franco de Andrade pugnou, em discurso no Clube de Engenharia, pela mesma sorte à Igreja dos Clérigos, mas em vão. "Preservar essa igreja rococó? Pra que?" questionaram. A igreja de São Joaquim teve destino idêntico, à época do remodelamento da cidade por Pereira Passos.
       A arquitetura do século XIX, bem assim aquela outra que se desenvolve durante o século XX fora das tendências modernas, vivem hoje o mesmo problema que o Barroco viveu há cem anos atrás. É preciso que se volte a estudar o século XIX e o XX, especialmente a arquitetura que se convencionar chamar de eclética, mas que guarda, na verdade, herança preciosa do romantismo, com sua tendência revivalista neo medieval. Se não conferirmos, com nossos estudos e nosso olhar crítico sobre o passado, sentido histórico e cultural á arquitetura que se desenvolveu na virada do século, nenhuma autoridade pública fará isso, sem crer que o bem é parte integrante da memória coletiva.
       Por isso, não é só pela incúria das autoridades que se perdem bens culturais. Nós também - cidadãos - somos responsáveis por essa perda, porque não nos interessamos pela matéria, não olhamos com aquele olhar de estranheza, de indagação, de estudo que Maria do Carmo usa para perscrutar a história de São João Nepomuceno. A história não é um disciplina que deve interessar apenas aos  historiadores, mas uma forma de construção de identidade de cada um e, assim, da sociedade.
       Há pouco tempo, no âmbito do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), houve acirrada discussão sobre a proteção legal de uma igrejinha neoclássica encravada numa região que já vem sendo maltratada pela especulação imobiliária há alguns anos. A igreja e de Nossa Senhora da Vitória, localizada no chamado corredor da Vitória, em Salvador (BA). Um dos aspectos alegados pela parte contrária ao tombamento do imóvel alegou exatamente a inexistência de valor do objeto, respaldado num parecer de tempos atrás, onde se assinalara que o imóvel não tinha importância artística.
       É imperativo questionar-se o prestígio exclusivo, para fins de tombamento, da arquitetura do início da colonização até fins do século XVIII, quando o Barroco vai chegando a seu termo, ainda em pleno frondosismo rococó. Sob o ponto de vista histórico, é um truísmo lembrar que a formação do povo brasileiro não se resume à etapa que se encerra com o fim da era colonial. O século XIX e o XX, quando se iniciam novas tendências artísticas, são importantíssimos e precisam ser preservados. É necessário que ele seja valorizado e o valor é o resultado de uma reflexão crítica que fazemos sobre nosso passado. Isto é uma incumbência afeta à toda a sociedade. Só assim, ou seja, só após darmos valor aos nossos bens culturais, é que poderemos protegê-los. Não se pode zelar por aquilo de que não gostamos, ou seja, que não conhecemos.
       Proteger esse patrimônio cultural pelo qual Maria do Carmo se interessa, neste ponto, é quase uma utopia, porque ainda parecem longínquos os tempos  em que será considerada necessária a preservação do patrimônio que medrou no solo brasileiro sob a égide do Neoclassicismo, do Romantismo e do Ecletismo. Precisamos fazer correndo a preservação desses imóveis porque, enquanto a sociedade não se conscientizar da importância desse material artístico para toda a memória coletiva, muita coisa se perderá, seja pela destruição, seja pela descaracterização, seja pelo esquecimento.
       O trabalho de Maria do Carmo sobre São João Nepomuceno tem um lado científico de apuração sistemática de dados históricos sobre a localidade e sobre as igrejas de lá. Mas o envolvimento com seu objeto de investigação não termina por aí. Suas preocupações com as edificações religiosas extravasa a mera preocupação histórica e artística, indo atingir o plano elevado da espiritualidade. Para ela, a preservação do patrimônio cultural é uma questão que está intimamente ligada à religiosidade também. E com razão. Uma igreja não é um museu, mas um espaço onde as pessoas ainda oram e exercem sua espiritualidade. E é exatamente isto que confere sentido histórico à prática da preservação do patrimônio cultural, qual seja, ter em mente a dimensão religiosa da manifestação artística. Não há muito, a modesta cidade de São João Nepomuceno receberia, diretamente da Catedral São Vítor, dada pela cúria arquiepiscopal de Praga, na República Tcheca, uma relíquia de São João Nepomuceno, que está por ser remetida à matriz tão logo do encerramento das obras. Essa doação representará muito para a salvaguarda do patrimônio cultural religioso são-joanense, na medida em que acentuará as práticas religiosas que têm ocorrido na cidade, aguçando a importância dos edifícios onde essas práticas transcorrem. 
       A cidade fica perto de Juiz de Fora e encontra-se emoldurada de montanhas e do céu, encantando pela escala humana que ainda possui. Ali, a brutalidade do arranha-céu ainda não se impôs. O que se vê, na linha edílica que recorta o horizonte em ângulos plurais, dentre verdes e azuis, são as torres das igrejas, algumas das quais de singela pureza estilística, com tendência às soluções arquitetônicas típicas do século XIX ou início do XX.
      A preservação do patrimônio cultural brasileiro precisa ser assumida pelas prefeituras espalhadas pelo interior do Brasil. Já vai longe a época em que apenas o poder público federal chamava a si tal incumbência. O trabalho do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) é sumamente necessário, mas ele não pode ser o único. É preciso que ele divida esforços com os governos estaduais e com prefeituras. Surgido no ajo de 1937, num  momento histórico em que o Estado brasileiro empenhava-se na construção de uma identidade nacional, o IPHAN privilegiou tombar aquilo que, à época, entendia-se como de valor excepcional e representativo para toda a sociedade brasileira. Mas o nosso patrimônio cultural, ou seja, aqueles bens cuja preservação poderia não ser da União, mas o era dos governos estaduais e das prefeituras, era ainda maior que aquele abarcado pelo órgão oficial federal. Assim, foram surgindo, nos estados brasileiros, outros órgãos acauteladores. De forma análoga, o mesmo se passou entre os governos estaduais e as prefeituras. Várias capitais e ainda cidades do interior começaram a criar suas próprias leis  destinadas a preservar seu patrimônio histórico e artístico.
       O desejo é que o trabalho de Maria do Carmo Sobreira venha a despertar o interesse das autoridades públicas são-joanenses e de outras localidades circunvizinhas em relação a políticas públicas mais efetivas voltadas à preservação de seu patrimônio cultural. Afinal, além da importância do patrimônio histórico como fator de afirmação da identidade coletiva, é ele peça fundamental para o turismo cultural, que é quase sempre fonte imprescindível de recursos nas cidades europeias. Proteger o patrimônio cultural e mesmo os centros históricos é um fator de afirmação da cidadania e da luta por uma melhor qualidade de vida. 

Marcus Tadeu Daniel Ribeiro é historiador da arte, mestre em História do Brasil (IFCS/UFRJ)  e doutor em História Social  (IFCS/UFRJ). Pesquisador na área de tombamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Professor de História da Arte do Colégio de São Bento e do curso de Introdução à História da Arte, do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA/IPHAN).
Leciona História da Arte Sacra no curso de pós-graduação em História da Igreja da Faculdade de São Bento. É membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e do Comitê Brasileiro de História da Arte, filiado ao CIHA/UNESCO.