quarta-feira, 22 de junho de 2016

A ROÇA FRANCESA DE NOSSOS BISAVÓS...

Bom dia!

     Recebi há alguns dias, por e-mail, um arquivo em power point apaixonante, chamado "LA CAMPAGNE D'AUTREFOIS". Ele me falava, somente por imagens, sobre como era a vida no interior francês até algum tempo atrás. 
     Então selecionei, dentre todas as imagens, aquelas que mais definem o que foi o dia-a-dia de nossos bisavós nas "roças" francesas, antes de sua vinda para o Brasil. Conforme pude constatar em minhas estadias no PÉRIGORD, que ainda conserva vívida a memória desses tempos, os hábitos do final do século XIX se conservaram por décadas e décadas. Alguns persistem até mesmo em nossos dias.
     Vamos viajar comigo no tempo, um pouquinho?


                                                











terça-feira, 7 de junho de 2016

100 ANOS DO JORNAL "O MUNICÍPIO".


                                                                               


Bom dia!

     Devidamente noticiado, esperado e comemorado foram os 100 anos da publicação mais importante e mais antiga de nossa região de Minas Gerais. 
     Para nós, pesquisadores, de importância crucial. Ainda que não tenha por vocação aprofundar temas, cumpre muito bem, até hoje, sua tarefa de informar sobre diferentes esferas de interesse. 
     Outros, melhor que eu souberam louvar esse trabalho tão digno. São contribuintes ativos e maravilhosos desse Jornal. Pessoas que eu, particularmente, admiro e acompanho. São eles CHICRE FARHAT e JOSÉ LUÍS MACHADO RODRIGUES, o LUJA. Ambos com vários livros publicados. Essa é a dica que aproveito para deixar para você que me visita aqui: leia- os. 
    
                              



Muito obrigada, muitíssimo obrigada a todos os editores que, suscedendo-se no idealismo e na consciência cívica, trouxeram-nos até os dias de hoje nosso querido e sempre tão aguardado "O MUNICÍPIO", trabalho tão fundamental para cada um de nós.


                                    
Nesse primeiro recorte, a comemoração antegozada por CHICRE.













domingo, 22 de maio de 2016

FAZENDA DA SERRA











Alô, pessoal!

      Até onde temos conhecimento, não há nenhuma relação da FAZENDA DA SERRA. Entretanto, como essa fazenda tem sido de grande importância na história de MARIPÁ, achei que alguns de vocês achariam interessante o artigo a seguir, originalmente publicado no perfil de MAURÍCIO EFÍSIO MEDINA, atual proprietário. Conheçam a história dessa fazenda, através da escrita sempre inspirada do profundo conhecedor da região que é nosso já aqui apresentado outras vezes JOSÉ LUIZ MACHADO RODRIGUES, o LUJA.


Situada no município de Maripá de Minas (MG), no sopé da serra de Rochedo, pode ser considerada a base da família Ferreira da Fonseca aqui estudada. Daí decorre a conveniência de se viajar um pouco pela sua história dessa fazenda, que tem início em 1866. De início é bom lembrar que documentos encontrados na sede da fazenda da Serra e em algumas outras fontes consultadas contam que em 15 de maio de 1866, Antonio Ferreira Martins, adquirindo de Francisco Ferreira da Fonseca e sua mulher Carlotta Marcília de Jesus (seus tios) se estabeleceu como fazendeiro. Não demorou muito e, por outras compras e heranças, formou nas vastas matas que circundavam a Serra de Rochedo, a sua fazenda da Serra que chegou a possuir mais
de cem alqueires de terras, culturas diversas, pastos valados e cercados, matas virgens, cafezais, engenho de café, engenho de cana, alambique, moinho, monjolo, telefone e uma boa casa sede em estilo colonial, confortável, assoalhada, forrada e envidraçada e que ainda hoje permanece bem conservada.
Interessante observar que o Guia da Região da Mata, 1º Censo Cultural de Minas Gerais de 1895 não menciona esta fazenda. Informa apenas que em meados do século XIX nas paragens onde está hoje Maripá de Minas já podiam contar as fazendas
Córrego do Meio, Bonsucesso, Bom Destino, Contendas, Forquilhas e Grota, entre as várias que se dedicavam ao cultivo do café e dos cereais. O que faz supor que o status de grande fazenda a Serra tenha adquirido após algumas anexações de novas terras da vizinhança.
Sobre algumas destas anexações nos arquivos da própria fazenda foram localizados documentos comprobatórios das transações. Em 06.10.1873 Augusto Cezar Pereira vendeu a Antonio Ferreira Martins uma casa que possuía na fazenda dos Moinhos. Em 16.01.1895 Antonio recebeu em hipoteca a fazenda dos Moinhos com 40 alqueires, localizada nas proximidades da fazenda Bonsucesso, que pertencia a José Joaquim de Almeida. Dita fazenda confrontava com as terras de Antonio Ferreira Martins, Domiciano Monteiro de Rezende3, Bento José da Silva, Justino de tal, Joaquim Clemente de Campos, José Pinto Soares e João Celestino de Almeida. No ano seguinte, no dia 03.05.1896, Pedro Fernandes da Costa vendeu parte de um paiol que possuía na fazenda dos Moinhos. Em 06.09.1896, adquiriu de José P. de Almeida uma casa e cafezal no sítio do Carazal4. E em 13.01.1908 foi a vez de João Bento Ferreira e Esmeraldina Rodrigues de Sá venderem uma casa e demais benfeitorias que possuíam para a fazenda da Serra. Possivelmente outras aquisições ocorreram e a fazenda da Serra cresceu e se desenvolveu. Tornou-se uma das primeiras de Maripá a possuir telefone, rádio, engenho de serra e alambique movido a vapor. Uma das maiores produtoras de café, arroz,
açúcar, aguardente, farinha de mandioca e fubá. Seus currais estiveram sempre entre os melhores. Ali a água encanada, a luz elétrica e a escola pública chegaram mais cedo.
Em mapa com traçado de suas terras, ao que parece datado de 1882, constam como sendo seus vizinhos, Ritta Jacintha da Conceição, Antonio Ferreira da Fonseca João Ferreira da Fonseca, Henriques Cezar de Souza, Joaquina Clara de Jesus e a fazenda Bonsucesso, de propriedade do comendador Domiciano Monteiro de Rezende. Vale ressaltar que a fazenda Bonsucesso, pelas ligações familiares envolvidas, pela sua vizinhança e porque parte de suas terras acabaram incorporadas à fazenda da Serra, conforme documentos dos arquivos de Antonio Ferreira Martins, tem também grande relevância no estudo sobre a família Ferreira da Fonseca. Escritura de 24.08.1889, encontrada nos arquivos da fazenda da Serra informa que Anselmo José Machado8 casado com Maria Thereza de Jesus vendeu cinco alqueires de terra na fazenda Bonsucesso para Francisco Augusto Duarte. E na primeira escritura de compra e venda lavrada em Maripá, em 13.09.1890, consta que a Bonsucesso confrontava com herdeiros de Anselmo J. Machado, com Joaquina Clara de Jesus e outros.
No jornal O Guarará de 03 de janeiro de 1904 estão os 12 maiores fazendeiros de Maripá que mais contribuíram com imposto no município. Nessa relação estão os nomes de: Amélia Maria de Vargas; Antonio Bento Fernandes, proprietário da fazenda da Cachoeirinha; Antonio Ferreira Martins, fazenda da Serra; Avelino Ferreira da Fonseca, fazenda da Boa Vista da Serra; comendador Domiciano Monteiro de Rezende, fazenda Bonsucesso, talvez o pioneiro da família Monteiro de Rezende em Maripá; Domingos Henrique de Gusmão; Firmino François Alibert, comendador que em 1881 fazia parte do conselho da intendência municipal e em 1894 foi escolhido vereador especial por Maripá, cargo que não assumiu; Giaccomo Trezza avô do ex-prefeito Walter Trezza; José Antonio Trezza; José Antonio de Oliveira e Silva; Maria Heleodora Martins; e, Ricardo José Coelho, proprietário da fazenda Bom Destino. Na relação publicada em 1905 com o nome dos 15 maiores fazendeiros de todo o município do Guarará o capitão Antonio Ferreira Martins aparece como o terceiro maior e o comendador Domiciano Monteiro de Rezende e Avelino Ferreira da Fonseca são, respectivamente, o 11º e o 12º colocados.
A partir de 1909 a fazenda da Serra passou a pertencer ao capitão Quintino da Costa Mattos, neto de Antonio, conforme carta de adjudicação no inventário de Luiza Maria da Conceição.11 Sucederam ao capitão Quintino os seus filhos e, posteriormente, o seu neto Carlos de Mattos Carvalho que a transferiu para pessoas estranhas à família.

     Maurício nos apresenta, também, um pouquinho do panorama atual da dita fazenda:

FAZENDA DA SERRA, 150 ANOS DE HISTÓRIA.
Neste mês de maio, uma de nossas unidades produção, nossa sede histórica, a fazenda da Serra, estará completando 150 anos de existência, apresentando uma vida produtiva ininterrupta, começando com o café em 1866, chegando a produzir sacas de milho e arroz além de ter fabricado umas das cachaças mais famosas da região de Maripá de Minas, a cachaça 'Serrana'. Hoje a produção da fazenda está voltada 100% para produção de leite, produzindo genética de ponta para o mercado.
A 3M Pecuária e toda sua equipe tem o orgulho de fazer parte desta bela história.

Nossos parabéns a MAURÍCIO e família, por terem sempre pretendido reconhecer e valorizar a importância histórica da propriedade que adquiriram. Carecemos disso. Que o exemplo se propague. Boa sorte!

sexta-feira, 20 de maio de 2016

GANHADORA DO SORTEIO

     Boa noite, pessoal!
     Conforme combinado, foi sorteado no dia de hoje, 20/05/2016, um exemplar autografado do nosso livro. Para esse sorteio, foram consideradas as manifestações aqui no blog, no meu e-mail e no Facebook. 
      A ganhadora é do Rio de Janeiro e chama-se ROSY CRISTINA MACHADO. 
      Muito obrigada, Rosy, por curtir nossas publicações. Espero que curta também o livro. A "FAMÍLIA DOUSSEAU" agradece sua participação.
      Abraços!

sexta-feira, 13 de maio de 2016

100.000 VISITAS!!!

    
                                                  




      Esse é ou não é um marco mais do que especial? Sendo assim, para comemorarmos juntos, sortearei, no dia 20/05, um exemplar do meu livro "Dousseau: Enter - Franceses no Império do Café". Sem nenhum custo para você, nem mesmo o de envio. 

                                                    


      Para concorrer basta que você envie seu nome e endereço  completo (não esquecer o CEP!) para meu e-mail : mmmayrink@hotmail. com.
      O resultado será divulgado aqui mesmo, nessa página.
      Boa sorte e mais uma vez muito obrigada por sua preciosa companhia que tanto me prestigia.
      

quinta-feira, 28 de abril de 2016

PRIMÓRDIOS DA ESTRADA DE FERRO UNIÃO MINEIRA - DOCUMENTO RARO!

     








Bom dia, leitores queridos!


     Hoje venho dividir uma pérola rara com vocês. Tendo como fonte inicial documentos digitalizados pelo MUSEU HISTÓRICO DE JUIZ DE FORA para o acervo da CÂMARA DE MAR DE ESPANHA. Aproveito para encaminhar meu agradecimentos de sempre, grandes e sinceros, a FRANCISCO OLIVEIRA.
     Esse documento em particular interessa sobremaneira a todos os amantes de história, mais especificamente da história da ZONA DA MATA MINEIRA, da ferrovia e do ciclo do café. Resumindo: interessa exatamente a nós que aqui estamos. Então vamos lá. Na íntegra e no original, para vocês, esse documento de raro valor.


                                                 

                                                    


                                                
                                                      




                                                       







                                                            

















                            Então é isso. Espero que tenham tido todos bom proveito. E o mesmo "frisson" que sinto ao ver detalhados, como se fosse hoje, os primeiros passos que abriram caminho para a existência mesmo de nossa BICAS e de nós próprios. Relatadas ali, sem a noção ainda clara do envolvimento que pode ter uma simples decisão de "onde colocar uma estação" para os futuros capítulos de uma história que ainda se faz. Fabuloso! Não acha?

terça-feira, 19 de abril de 2016

PATRIMÔNIO CULTURAL - NOVO PONTO DE VISTA

Bom dia a todos.

      Recentemente, tive o prazer de conhecer o livro de MARIA DO CARMO SOBREIRA, chamado IGREJAS, CAPELAS E COMUNIDADES DO MUNICÍPIO DE SÃO JOÃO NEPOMUCENO. 
      Além da enorme alegria de ver ali descrita a capelinha de BOM JESUS DOS MACHADOS, pude conhecer todas as outras dos arredores, levantadas com a mesma fé, trabalho, suor e empenho da população de cada lugarejo daqueles arredores. 
      Mas sobre os livros de MARIA DO CARMO já falamos em outro post. Neste, venho transcrever para vocês um resumo do ponto de vista de MARCUS TADEU DANIEL RIBEIRO sobre a espinhosa questão referente à conservação do nosso patrimônio cultural.
      Embora o tema seja recorrente para quem estuda a História em qualquer um de seus infinitos aspectos, confesso que ele, na minha opinião, "quebrou um paradigma". Me fez ver com muito mais clareza e tolerância o desgostoso cenário com o qual convivemos nesse campo. 
      Pense a respeito, após essa leitura. É um excelente exercício.
      

       "É costume da maior parte da população esperar que o Estado faça a preservação de seu patrimônio cultural. Mas quase não se tem ao certo o que vem a ser, de fato, este patrimônio cultural. Imagina-se que já se sabe o que vem a ser esse patrimônio cultural e é só uma questão de o Estado fazer a sua parte.
       Não é bem assim. O entendimento sobre o que é o patrimônio cultural brasileiro é um esforço permanente, uma redescoberta cotidiana e não é rígido, não está contido em nenhuma lei, manual estatístico ou ementário oficial. O que ontem não era para ser preservado, talvez hoje seja. Assim, enquanto se preservam algumas coisas, outras ficam entregues à própria sorte. Há várias razões para se preservar um bem cultural, como também há muitas outras para se não o preservar. Não é apenas pela incúria do poder público que se deixam de proteger edifícios históricos e artísticos.
       É que a memória não é nem pode ser um ato acrítico de salvaguarda de tudo que caia em seu domínio. A memória é seletiva: preservam-se coisas e se esquecem de outras. A memória só faz sentido se for assim. Na seleção das coisas a serem protegidas pela sociedade em parceria com o poder público, existe o juízo de valor, quer dizer, elegem-se alguns bens culturais para serem preservados e outros não.
       Mas é preciso conhecerem-se esses bens culturais. É necessário olhar-se para o nosso universo de coisas que testemunham o trajeto histórico do povo brasileiro, em seus vários matizes culturais e especificidades históricas. Porque o valor cultural do patrimônio histórico é uma construção e não um dado absoluto, permanente e inerente ao objeto apenas. Sendo valor, é sempre relativizado  ante o universo de referências históricas, morais e filosóficas que a sociedade possui.
       É um erro, por exemplo, imaginar-se que a obra monumental do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, trabalho primoroso em ouro e referência do Barroco internacional, ou que a obra expressiva de Aleijadinho tenham sido sempre reconhecidos pela historiografia artística. Gonzaga Duque, o grande crítico de arte do século XIX, em sua obra célebre "Arte Brasileira", editada no início do século XX, refere-se ao Barroco como uma "brutalidade inventada pela inquisição". Aleijadinho, por sua vez, só seria valorizado e adquiriria essa unanimidade de que goza hoje em dia, a partir de estudos realizados na década de 1940 e seguintes no Brasil e no exterior.
       O valor do objeto cultural, por mais que pareça estranho, não é inerente a ele, mas ao olhar de quem vê esse bem. Rubem Alves já apontou para essa questão em seu texto "A Complicada Arte de Ver", onde, na esteira do pensamento de William Blake, lembra-nos que " a árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Respaldando-se ainda em Alberto Caieiro, heterônimo de Fernando Pessoa, lembra-se que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir as janelas para ver os campos e os rios.
       Assim, hoje em dia, já não é mais necessário se explicar muito para se reconhecer o valor cultural de uma igreja barroca. Todos vêem nela este valor que a historiografia celebrizou. Este reconhecimento é quase espontâneo. Mas houve necessidade, no passado, de se questionar a visão oitocentista que, por demais atrelada à herança neoclássica incutida no Brasil desde fins do século XVIII, se difundira nos anos oitocentos quase como um dogma, exaltando apenas o clássico e condenando o Barroco. Quantas obras barrocas não se perderem por causa disso?
        No Rio de Janeiro, só para se mencionar alguns exemplos mias célebres, a construção da Avenida Presidente Vargas poria no chão três igrejas, entre as quais a importantíssima São Pedro dos Clérigos, com sua planta em oito, sua talha rococó, enquanto que a igreja da Candelária, com sua decoração de vocabulário neoclássico, impunha-se sobre os engenheiros da grande via, que contornaram obsequiosamente, enquanto destruíam a igreja rococó. Rodrigo Mello Franco de Andrade pugnou, em discurso no Clube de Engenharia, pela mesma sorte à Igreja dos Clérigos, mas em vão. "Preservar essa igreja rococó? Pra que?" questionaram. A igreja de São Joaquim teve destino idêntico, à época do remodelamento da cidade por Pereira Passos.
       A arquitetura do século XIX, bem assim aquela outra que se desenvolve durante o século XX fora das tendências modernas, vivem hoje o mesmo problema que o Barroco viveu há cem anos atrás. É preciso que se volte a estudar o século XIX e o XX, especialmente a arquitetura que se convencionar chamar de eclética, mas que guarda, na verdade, herança preciosa do romantismo, com sua tendência revivalista neo medieval. Se não conferirmos, com nossos estudos e nosso olhar crítico sobre o passado, sentido histórico e cultural á arquitetura que se desenvolveu na virada do século, nenhuma autoridade pública fará isso, sem crer que o bem é parte integrante da memória coletiva.
       Por isso, não é só pela incúria das autoridades que se perdem bens culturais. Nós também - cidadãos - somos responsáveis por essa perda, porque não nos interessamos pela matéria, não olhamos com aquele olhar de estranheza, de indagação, de estudo que Maria do Carmo usa para perscrutar a história de São João Nepomuceno. A história não é um disciplina que deve interessar apenas aos  historiadores, mas uma forma de construção de identidade de cada um e, assim, da sociedade.
       Há pouco tempo, no âmbito do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), houve acirrada discussão sobre a proteção legal de uma igrejinha neoclássica encravada numa região que já vem sendo maltratada pela especulação imobiliária há alguns anos. A igreja e de Nossa Senhora da Vitória, localizada no chamado corredor da Vitória, em Salvador (BA). Um dos aspectos alegados pela parte contrária ao tombamento do imóvel alegou exatamente a inexistência de valor do objeto, respaldado num parecer de tempos atrás, onde se assinalara que o imóvel não tinha importância artística.
       É imperativo questionar-se o prestígio exclusivo, para fins de tombamento, da arquitetura do início da colonização até fins do século XVIII, quando o Barroco vai chegando a seu termo, ainda em pleno frondosismo rococó. Sob o ponto de vista histórico, é um truísmo lembrar que a formação do povo brasileiro não se resume à etapa que se encerra com o fim da era colonial. O século XIX e o XX, quando se iniciam novas tendências artísticas, são importantíssimos e precisam ser preservados. É necessário que ele seja valorizado e o valor é o resultado de uma reflexão crítica que fazemos sobre nosso passado. Isto é uma incumbência afeta à toda a sociedade. Só assim, ou seja, só após darmos valor aos nossos bens culturais, é que poderemos protegê-los. Não se pode zelar por aquilo de que não gostamos, ou seja, que não conhecemos.
       Proteger esse patrimônio cultural pelo qual Maria do Carmo se interessa, neste ponto, é quase uma utopia, porque ainda parecem longínquos os tempos  em que será considerada necessária a preservação do patrimônio que medrou no solo brasileiro sob a égide do Neoclassicismo, do Romantismo e do Ecletismo. Precisamos fazer correndo a preservação desses imóveis porque, enquanto a sociedade não se conscientizar da importância desse material artístico para toda a memória coletiva, muita coisa se perderá, seja pela destruição, seja pela descaracterização, seja pelo esquecimento.
       O trabalho de Maria do Carmo sobre São João Nepomuceno tem um lado científico de apuração sistemática de dados históricos sobre a localidade e sobre as igrejas de lá. Mas o envolvimento com seu objeto de investigação não termina por aí. Suas preocupações com as edificações religiosas extravasa a mera preocupação histórica e artística, indo atingir o plano elevado da espiritualidade. Para ela, a preservação do patrimônio cultural é uma questão que está intimamente ligada à religiosidade também. E com razão. Uma igreja não é um museu, mas um espaço onde as pessoas ainda oram e exercem sua espiritualidade. E é exatamente isto que confere sentido histórico à prática da preservação do patrimônio cultural, qual seja, ter em mente a dimensão religiosa da manifestação artística. Não há muito, a modesta cidade de São João Nepomuceno receberia, diretamente da Catedral São Vítor, dada pela cúria arquiepiscopal de Praga, na República Tcheca, uma relíquia de São João Nepomuceno, que está por ser remetida à matriz tão logo do encerramento das obras. Essa doação representará muito para a salvaguarda do patrimônio cultural religioso são-joanense, na medida em que acentuará as práticas religiosas que têm ocorrido na cidade, aguçando a importância dos edifícios onde essas práticas transcorrem. 
       A cidade fica perto de Juiz de Fora e encontra-se emoldurada de montanhas e do céu, encantando pela escala humana que ainda possui. Ali, a brutalidade do arranha-céu ainda não se impôs. O que se vê, na linha edílica que recorta o horizonte em ângulos plurais, dentre verdes e azuis, são as torres das igrejas, algumas das quais de singela pureza estilística, com tendência às soluções arquitetônicas típicas do século XIX ou início do XX.
      A preservação do patrimônio cultural brasileiro precisa ser assumida pelas prefeituras espalhadas pelo interior do Brasil. Já vai longe a época em que apenas o poder público federal chamava a si tal incumbência. O trabalho do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) é sumamente necessário, mas ele não pode ser o único. É preciso que ele divida esforços com os governos estaduais e com prefeituras. Surgido no ajo de 1937, num  momento histórico em que o Estado brasileiro empenhava-se na construção de uma identidade nacional, o IPHAN privilegiou tombar aquilo que, à época, entendia-se como de valor excepcional e representativo para toda a sociedade brasileira. Mas o nosso patrimônio cultural, ou seja, aqueles bens cuja preservação poderia não ser da União, mas o era dos governos estaduais e das prefeituras, era ainda maior que aquele abarcado pelo órgão oficial federal. Assim, foram surgindo, nos estados brasileiros, outros órgãos acauteladores. De forma análoga, o mesmo se passou entre os governos estaduais e as prefeituras. Várias capitais e ainda cidades do interior começaram a criar suas próprias leis  destinadas a preservar seu patrimônio histórico e artístico.
       O desejo é que o trabalho de Maria do Carmo Sobreira venha a despertar o interesse das autoridades públicas são-joanenses e de outras localidades circunvizinhas em relação a políticas públicas mais efetivas voltadas à preservação de seu patrimônio cultural. Afinal, além da importância do patrimônio histórico como fator de afirmação da identidade coletiva, é ele peça fundamental para o turismo cultural, que é quase sempre fonte imprescindível de recursos nas cidades europeias. Proteger o patrimônio cultural e mesmo os centros históricos é um fator de afirmação da cidadania e da luta por uma melhor qualidade de vida. 

Marcus Tadeu Daniel Ribeiro é historiador da arte, mestre em História do Brasil (IFCS/UFRJ)  e doutor em História Social  (IFCS/UFRJ). Pesquisador na área de tombamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Professor de História da Arte do Colégio de São Bento e do curso de Introdução à História da Arte, do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA/IPHAN).
Leciona História da Arte Sacra no curso de pós-graduação em História da Igreja da Faculdade de São Bento. É membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e do Comitê Brasileiro de História da Arte, filiado ao CIHA/UNESCO. 
       

sábado, 19 de março de 2016

DINHEIRO NA ESTRADA - UMA SAGA DE IMIGRANTES

Bom dia!

                                           




       Há tempos venho querendo fazer isso que faço agora: publicar um extrato de um dos livros de EMIL FARHAT. Aquele é um dos mais importantes de minha extensa bibliografia sobre imigrantes em geral e pérola rara quando falamos da imigração para a região de BICAS e circunvizinhanças. 
      O livro trata, é claro, da imigração libanesa, ocorrida nesse caso específico mais de 20 anos depois dos nossos franceses. Apesar desse lapso de tempo, o cenário pouco mudou, mesmo considerando a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República. Quando nossos bisavós chegaram, as duas mudanças estavam ocorrendo. Quando libaneses e outros imigrantes vieram, o "olho do furacão" já tinha passado, mas não havia ainda solidez nos novos hábitos que os novos tempos exigiam. Pelo menos não "na roça". Por isso as vivências de uns e outros foram extremamente similares, e penso que podemos considerar os relatos de EMIL como muito próximos aqueles que todos os outros imigrantes, de outras nacionalidades, certamente fariam. 
       E de forma tão límpida, crua, vívida, que quase podemos sentir igual: lugares, sabores, odores, imagens, sentimentos, pontos de vista...
       Temos também, nessa obra, a oportunidade de "garimpar" passagens preciosíssimas que falam "desses franceses". Coisa que é praticamente impossível de encontrar em outras fontes. Sim, não são palavras lisonjeiras, na maioria das vezes. Mas perfeitamente cabíveis dentro da vivência do povo libanês daquele tempo diante da "grande metrópole", a França. 
       Esses "franceses" citados por ele podem ter relação com "os nossos": perigordinos do ORENOQUE e do VILLE DE BUENOS AYRES. Quiçá quem sabe algum do NÍGER... Como ele cita poucos nomes desses personagens, fica-nos essa lacuna incômoda e, ao mesmo tempo, mágica: de quem, especificamente, ele fala? A quem pertence aqueles fiapos de vida que nos chegam como que bisbilhotadas através de uma fresta? Mistério para sempre...
       EMIL e seu irmão, CHICRE são importantíssimos, ou antes, fundamentais para a construção de nossa memória coletiva como oriundos do pequeno cantinho de ZONA DA MATA circunvizinho a BICAS.
       Devo registrar que o livro foi escrito baseado numa troca de correspondência entre um imigrante libanês e sua mãe que permaneceu no Líbano. Segundo o próprio EMIL esclarece, as cartas do filho para a mãe desapareceram todas em consequência de bombardeiros em BEIRUTE. Ficaram as da mãe, com o filho brasileiro. Portanto, é ela quem fala. Respondendo aos relatos do filho. O que o filho disse? Você terá que adivinhar. O que será fácil, na maioria das vezes.
       Pode ser que o formato que adotarei aqui não esclareça muita coisa. Mas certamente criará em você, leitor, o desejo de ler o livro por inteiro. Você ainda pode encontrá-lo nos grandes sebos virtuais, como, por exemplo, a ESTANTE VIRTUAL. E afirmo: não se arrependerá!
       Para expandir o alcance de seu trabalho, vamos lá. Mãos à obra!

          
Pág.3 - 
 Se cortássemos todos os cedros do Líbano
 - e os cedros são nossa fonte de inspiração;
 e com eles erigíssemos aqui um templo
 cujas torres atravessassem as nuvens;
 se arrebatássemos de Baalbeck e de Palmira
 os vestígios de nosso passado glorioso;
 se arrancássemos de Damasco o Túmulo de Saladino,
 e de Jerusalém o Sepulcro do redentor dos homens;
 se levássemos todos esses tesouros
 a esta grande nação independente
 e a seus gloriosos filhos;
 sentiríamos que, ainda assim,
 não pagamos tudo o que devemos
 ao Brasil e aos brasileiros.


Pág.26 -
      Ele caiu na esparrela de sair vendendo o café que algum parente e 'alguns amigos' tiravam das pilhas de sacas, que iam para a fogueira feita pelo próprio governo.
     Aliás, este é outro espanto: que coisa é essa de queimarem     "milhares e milhares de sacas", só para fazer subir o preço do produto? Se este café que está sobrando fosse dado pra gente que nunca bebeu uma xicrinha, ia atrapalhar os negócios do governo e dos graúdos daí?
      Esse fogaréu de café deve também doer nos olhos dos pobres   daí, com a mesma mágoa que o olho do sol dói nos olhos de quem não pode enxergar.



Pág.30 -
     Aliás, até hoje há gente falando e fazendo perguntas sobre       sobre aquela outra notícia de uma de suas cartas, de que aí tem     franceses trabalhando na roça, e de pé no chão. Que diabo foram fazer aí? Como é que uma gente tão cheia de luxinhos e tão arrebitados de empáfia, foi parar nesse oco do mundo?



Pág.35 - 
São as sucessivas baldeações , que começa aí na preguiça do tal   carro-de-bois que vocês ainda usam, antes de alcançar a primeira estação de trem.


Pág,36 -
 ... das coisas e das gentes que atraem e enfeitiçam vocês,             retendo-os nesse fundo do mundo, no qual decidiram mergulhar   por um tempo que não passaria de "volto logo, não demoro".


Pág.40 -
Cruzes! Como é que essa gente larga o mais-ou-menos aqui do    Líbano, e se enfurna por esses buracos incerto do mundo? Será só coceira no rabo? Ou falta de miolo?



Pág.42 -
 ... daquela maldita preocupação que é a doença espiritual             número um do imigrante e até dos filhos deles: a pressa da assimilação, a danação para apagar as dessemelhanças, o medo, enfim, da rejeição.



Pág.52 -
 ... ainda tenho outro assunto que de repente encheu de espanto e
 comentários o pessoal daqui. 
     Refiro-me à sua informação de que há francese aí, perdidos no meio dos roçados, lavrando a terra como qualquer felá daqui. E, espanto dos espantos, quase tão acaipirados como os caipiras nativos, chegando descalços aos limites do lugarejo, e de sapatos na mão só calçando-os para entrarem no  povoado. As mulheres
deles também? Deus do céu, quem diria?
     Aqui, como você sabe, eles são os novos donos. Francês de pé no chão? É isso também que está trazendo mais vizinhos à nossa casa. Querem ver, os próprios olhos, que aquilo está escrito com todas letras na sua carta - falado assim, sem querer, 
espontaneamente, sem saber o tamanho da estranheza que isto poderia causar por aqui.



Pág.55 -
      Com o que então o senhor me previne de que In-Hula torce o nariz toda vez que falo mal dos francese senhor In-Hula que vá lamber sabão! Isto é. Espere aí. Que é que ele tem com os             franceses? São fregueses da loja dele?
     A maior parte das vendas que se faz no dia-a-dia por aqui, na    região, é de tostão. Um tostão de açúcar. Um tostão de sal, um tostão de toucinho, um tostão de fumo.
     Esse dinheiro compra apenas um punhadinho de cada coisa. Só aos sábados é que há negócios mais graúdos com a vinda da "folha" dos sítios e fazendas. A maior parte das pessoas não usa sapatos. Até mesmo sitiantes e fazendeiros , que são os importantes daqui. Sapato é pra domingo, ou dia santo de missa.
    Você me põe zureta com esse Brasil. Ao mesmo tempo que fala de tanta riqueza, tantas terras, tanta beleza - mostra esse retrato das miudezas humanas. Afinal, no que devo acreditar?
    Que dinheiro vocês pensam juntar nessa mendicância?                               

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      Vocês aí "caçando qualquer bicho com forma de mulher".       Disputando com os rapazes de outras terras, também levados pelo mesmo enxerimento da aventura, as poucas moças brasiles de boas famílias que se disponham a casar com "turcos" e outros rapazes gringos, como você mesmo escreveu. Ou já se esqueceu?



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      Mas você sempre diz que o Maripá parece todo uma família só. Que a aldeia é em volta de uma praça. E que a praça é como se fosse uma sala grande, um salão estar ao ar livre. Para todas as famílias, todos os amigos.Como é? Melhorou assim, depois da tragédia?
       -  Todo mundo de quem você já me falou tantas coisas boas. Os Temponi, os Gonçalves, os Malatesta, os da Costa, os Pinheiros, os Canturinis. E até mesmo quem sabe, os franceses daí. Que, aliás, me parecem de vinho bom, diferente do vinagre que mandam para cá.


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      Foi revirando esse reservatório - a gaveta em que guardo suas cartas - que encontrei aquela em que descreve sua chegada a Bicas, e depois a Maripá.
     Para mim, ainda é a carta da esperança. Nela, suas  frases soam como passadas decididas, de quem sabe a que vai e o que quer. É o testemunho exuberante de um forasteiro talvez atordoado, quem sabe deslumbrado, mas desvencilhado, ainda não envolvido nem absorvido.
    Você começa descrevendo o choque de que foi tomado quando, após identificá-lo com a ajuda de um patrício, o emissário de seus irmãos, Chichico, o encaminhou para uma praça, à saída da estação ferroviária de Bicas. Você marchou, mas logo se deteve, indeciso, diante do que a princípio lhe pareceu
estranhamente um imenso curral. Centenas de bois imobilizados, sentados ou de pé, chacoalhavam chifres
ou espadanavam rabos ou mugiam, enlaçados às cangas
que os prendiam em duplas de carros - oitenta, cem,  quem podia contar? - aos quais estavam jungidos.
     E dezenas de homens fortes, de uma mistura de cores que não havia na Jamaica, seminus ou de roupas quase rasgadas, transitavam às carreiras, indiferentes aos perigos de esbarrões nos animais. Carregavam, à cabeça ou às costas, sacos que pareciam muito pesados. Ziguezagueavam em filas frenéticas, entre os espaços mínimos deixados pela boiada, também impaciente. E todos a um só tempo cumpriam uma estranha ordem de gritar ou cantar, num improviso de sons e imprecações
em que se misturavam ondulações de cantigas e berros
trovejantes irritadiços ou desafiadores. Era o transporte da safra de café. Café! Uma palavra que você distinguia dos gritos. Que via escorrer como ouro em grãos, de sacos mal cuidados; que fazia rir; que desatava ordens e empurrava tudo e todos. 
     Finalmente eis você na estrada para o Maripá, cavalgando num cavalo "bem manso" - como entendeu
da mímica de Chichico, o mensageiro amigo que seus irmãos, atarefados com as vendas de sábado, mandaram para buscá-lo.
     Serrilhada ao meio ou às margens pelos sulcos desordenados das enxurradas, a "estrada" era um corte estreito de metro e meio de largura, sangrando e barrancos os rasgadas nas várzeas, por onde grimpavam ou se espalhavam matas virgens fechadas e misteriosas, ou disciplinadas lavouras de café.


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     Pepitas de ouro? Prata na Serra da Prata, ouro no Ouro Preto. Tudo aí na Minas? E o que é que vocês estão esperando, se cafezal sabe onde têm? Por que ficarem chumbados aí, Maripá, Guarará, Bicas. Bicas? Você me escreveu há tempos que isso significa "torneiras". Ora, bolas. Ainda se fosse logo de uma vez "enxurradas", córregos, regatos, riachos auríferos?!


Pág.143- 
     Ora, veja só - mais uma rata que essa velha professora estava ensaiando: já ia pedir que você também desse uma espiadela para ver se há mais navios no cais. É uma pena que daí de Bicas você não possa, como eu, ver o porto. Que titicas de montanhas são essas aí da
     Minas, que não dão para ver o mar?


Pág.162-
      Ainda tem tetra-tetraneto de donatário (?) chuchando até hoje em tetas que vararam da Corte para a República.


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      Foi preciso indagar sobre o estado de espírito em que deve viver a pobre da mulher do In-Hula para você me revelar - só agora! - que é sobrinha do Moulin. Ou você escondia isso para não me zangar? Tolice sua. Aqui, apesar das quizilas políticas com o governo deles, "cada libanês tem seu francês" - isto é, tem sempre um ou mais amigos franceses que ele destaca entre os outros, fazendo-os as "suas" exceções.
     No meio de todas essas apreensões, fiquei contente com o que escreveu de sua cunhada Germaine: ela adora o In-Hula e, se o marido deixar, carrega a espingarda para ir a essas expedições junto com ele. Foi exatamente numa situação dessas que Germain conheceu seu herói: In-Hula arrancou o pai dela das mãos de uns parentes que o surravam, por questões de herança. E ainda deu uma corrida nos agressores. Como eles não tem filhos, ela também o adora como seu "meninão".


Pág.225-
      Os donos de catações sempre confiaram no orgulho da população, por terem feito que Bicas seja a estação que mais exporta café em todos os mil quilômetros (?) de linhas da Estrada de Ferro Leopoldina. Além disso, sempre organizaram essa comemoração inocentemente (?), sem nem se lembrarem que a igreja ficava ali por perto. Padre Abílio era um liberal, surdo às zoada e fraquezas dos pecadores. Estes, aliás sempre corresponderam a essa surdez com gordas espórtulas para as obras da igreja. Mas desta vez se esqueceram de um fato novo: que padre Abílio se fora, aposentado. E o novo pároco, padre Noronha, chegou de nariz em pé farejando tudo, procurando conhecer os cheiros da vila.
      E pergunta vai, pergunta vem - no confessionário ou fora dele - o padre já marcou as áreas de maus odores.
      Positivamente, as catações não agradam ao naso pudico de padre Noronha.

Obs: pela citação do nome dos padres, podemos, pela primeira vez, precisar o relato como sendo no ano de 1923


Pág.229-
      Em lugar pequeno, não adianta tentar fazer coisas para não serem vistas. O povinho vive atrás de assunto como vira-latas atrás de qualquer naco de carne, ou urubu atrás de carniça. Numa tarde, os convidados do Rio de Janeiro tinham descido do trem, de surpresa, quinhentos metros antes do comboio entrar na vila, numa parada combinada com o velho Guimarães, da Leopoldina. E foram direto em carros separados para a catação escolhida. a de In-Hula - que era território neutro, onde Munheca Segundo e Cafezal podiam ir sem desdouro de parte a parte. As catadeiras selecionadas haviam chegado uma a uma em horários diferentes, de dez em dez minutos. Mesmo assim, logo a vila inteira sabia: aquele era o sábado da festa
excomungada.
      Transeuntes indo e vindo pela rua Barão, curiosos, as orelhas crescidas, de conchas alargadas, prontas a captar os ruídos do pecado, os gritinhos, as frases safadas que extravasavam de alguma porta entreaberta ou dos basculantes do velho casarão.
      Dentro da catação, cada visitante, sôfrego mas ainda sóbrio, movia-se muito de uma parceira à outra, sondando, procurando afinidades, conferindo preferências, tateando limites ou ilimites da licenciosidade, ansiosos que a noite apagasse logo o trotear dos enxerimentos que ainda vinha da rua. Por sua vez, do lado de fora, os conjurados do decoro esperavam também pelo anoitecer mais denso. Pouco à pouco o silêncio maior da noite fechada liberou dentro do casarão a senha para o extravasamento de todas as contenções, represadas pelo ano de espera "da festa". 
     Logo também o aceno convencional dos conspiradores do pudor, telegrafado de esquina a esquina, alcançou sua meta: as chaves da estação distribuidora de luz. E tudo na vila, inocentes e pecadores, foi colocado inesperadamente sob trevas. Seria a vitória da decência cegando a demência dos forasteiros depravados, e seus anfitriões inescrupulosos.


Pág.291-
     Engraçado, você diz que Marechalo chegou aí, ou mais precisamente, chegou no Maripá como "volume de
redespacho". Um primo diplomata o despachara correndo, para um vago "conhecido" no interior - o velho "major" Francisco Bianco, em Bicas - e este, depois de uns dias de quarentena e análise, assepticamente refugou Marechalo ainda mais para o interior, isto é, para o Maripá - "onde não havia nem estrada de ferro nem luz elétrica".
    E por sua vez, "major" Bianco quase caiu de emoção ao ver saltar na estação de Bicas aquele "bersagliere", que se apresentava a ele um tanto gasto e mal-cheiroso, mas uniformizado com a mais famosa farda da Itália.
    Coisa curiosa foi o modo como "major" Bianco apareceu como "destinatário da encomenda": o velho tornara-se lendário entre a "colônia" no Rio porque todos ouviam falar da inusitada e incansável fidalguia daquele italiano que, havia anos, por falta de serviço de bar, servia ele próprio na estação de Bicas, diariamente e gratuitamente, aos cansados passageiros dos trens que iam ou vinham do Rio, um reconfortante e substancioso "cafezinho" - feito ali perto, na cozinha de sua mansão.


Pág.304-
    Quanto a você, acho que acertou na sinceridade de, deixando de lado o meio-insulto do amigo português, reconhecer que essa boa corrida dos "patricinhos" daí para escolas mais adiantadas é a parte do deslumbramento de nossa gente pela pompa e destaque nas posições sociais.
     Aliás, esse deslumbramento será apenas dos turcos?Os outros, portugueses, italianos, franceses e um qualquer outro europeu que tenha por aí, também não mandam filhos para "as escolas de doutor"?


Pág.323- 
      Por falar em parentes dos índios, finalmente você esclareceu uma coisa que estranhei muito logo que registrou a presença dessa pequena colônia de franceses, aí nas vizinhanças: Cafezal explica que vieram dar com os costados na região à procura  sombra, ou das sobras de propriedades do tal capitão Marlière, o de Napoleão.
     Aliás, Aristides conta que o jovem Moulin chegou aí meio às tontas, como todo moço, atrás da aventura. Ficou zanzando muito tempo de lugar em lugar, sem orientação nem papelório, atrapalhado pela língua e pela confusão dos nomes, que não entendiam dele e el não entendia dos outros. Só depois de muitos anos, já plantado no Maripá, descobriu com um velho escrivão
de Mar de Espanha que o nome do lugar que  procurava, "Nossa Senhora da Encarnação dos "Bagres", já não existia mais. Só na nova capital poderiam informar sobre a troca. E essa capital, diziam, estava uma desordem de armários e de arquivos velhos, carregados para lá na bagunça de sempre, do
pouco-se-lhes-dá das coisas de governo.
     Então, o velho Moulin foi deixando a verificação para depois. E se acomodou. Ele procurava esse lugar porque era uma das aldeias da época, fundada por seu parente.


Pág.339 - 
     Quinze dias depois estava funcionando numa casa velha da praça a igreja a "Nova Loja do Tauil", nome dado por Cafezal. Vazia de tecidos e armarinhos, que teriam de vir do Rio ou de São Paulo. Mas abarrotada de cereais - arroz, feijão, milho, batatas - açúcar preto e engradados de queijo, barricas de rapadura, bandas e barrigadas de capado, garrafões e quartolas de  cachaça, cachos de banana e sacos de laranja, tudo vindo das fazendas de Iskândar, Cafezal e Muzaréf. A francesinha do In-Hula, doceira de mão cheia, mandou terrinas e potes de doces caseiros. E cada semana chegam do sítio do velho Moulin de cinco a seis dúzias de ovos e dois sacos de fubá, o melhor de toda a região: moído em moinho de pedra e feito só de milho catete, bonito e vermelho como a própria saúde.


     E então é isso, queridos leitores. Querem saber e saborear mais, muito mais? Corram atrás desse livro valioso!
     Concluo com as mais sábias palavras que pude ler e que, pelo tanto que me encantaram, usei em meu próprio livro:

     "O romancista não tem obrigações cartoriais
com a História, nem com a trivialidade do
cotidiano - apesar de valer-se, necessariamente, de ambos. 
      O ilimite da imaginação dá-lhe o direito de
rearrumar o mundo e as gentes, à seu modo."
                                                  Emil Farhat